sábado, 25 de setembro de 2010

Os Adventistas e a Política



Por Alberto Ronald Timm

Notícias sobre crises políticas e corrupções governamentais acabam polarizando a opinião pública dos países afetados. É curioso ver, de um lado, políticos questionáveis se fazendo de vítimas para continuar recebendo o apoio popular e, do outro lado, oposicionistas que aproveitando a situação para se autoproclamarem os únicos salvadores da pátria. A o mesmo tempo em que vários políticos tradicionais vão perdendo a credibilidade, algumas denominações evangélicas tem-se mobilizado politicamente, a ponto de montarem suas próprias bancadas em câmaras de vereadores, nas assembléias legislativas na Câmara dos Deputados e mesmo no Senado Federal, sob o pretexto de que os políticos evangélicos são mais honestos e confiáveis.

A crescente militância política evangélica tem suscitado algumas indagações importantes entre os próprios adventistas:
1ª) Deveriam os adventistas continuar politicamen­te passivos ou assumir uma postu­ra mais agressiva diante das crises governamentais?
2ª) Como a Igreja Adventista do Sétimo Dia encara a candidatura de alguns de seus membros a cargos políticos através de eleições públicas?
3ª) Que critérios devem ser usados na escolha dos candidatos em quem votar?

No capítulo "Nossa Atitude Quanto à Política” do livro Obreiros Evangélicos, págs. 391-396 (ver também Fundamentos da Educa­ção Cristã, págs. 475-484), podem ser encontradas importantes orientações sobre o não envolvi­mento de obreiros denominacio­nais em questões políticas. Já o pre­sente artigo menciona alguns con­ceitos básicos sobre a posição dos adventistas como cidadãos, candi­datos e eleitores políticos.

Organização apolítica

Exis­tem pelo menos três princípios fundamentais que regem a posição da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre a política. Um deles é o prin­cípio da separação entre Igreja e Estado, levando cada uma dessas entidades a cumprir suas respecti­vas funções sem interferir nos ne­gócios da outra. A Igreja crê que só poderá preservar esse princípio por meio de uma postura denomi­nacional apolítica, não se posicio­nando nem a favor e nem contra quaisquer regimes ou partidos po­líticos. Essa postura deve caracteri­zar, não apenas a organização ad­ventista em todos os seus níveis, mas também todas as instituições por ela mantidas, todas as congre­gações adventistas locais, bem como todos os obreiros assalaria­dos pela organização.

A Igreja encontra nos ensinos de Cristo e dos apóstolos base sufi­ciente para evitar qualquer mili­tância política institucional. O cris­tianismo apostólico cumpria sua missão evangélica sob as estruturas opressoras do Império Romano sem se voltar contra elas. O pró­prio Cristo afirmou que o Seu rei­no "não é deste mundo" e que, por conseguinte, os Seus "ministros" não empunham bandeiras políti­cas (João 18:36). Qualquer com­promisso político ou partidário por parte da denominação dificultaria a pregação do "evangelho eterno" a todos os seres humanos indistinta­mente (Mat. 24:14; Apoc. 14:6).

Outro princípio fundamental é que o nível de justiça social de um país é diretamente proporcional ao nível de justiça individual de cada um dos seus cidadãos, e que esta justiça individual, por sua vez, deri­va do interior da própria pessoa. Reconhecendo as dimensões so­ciais do pecado, a Igreja apóia e mesmo participa de projetos so­ciais e educacionais que benefi­ciam a vida comunitária sem con­flitarem com os princípios bíblicos. Muitos desses projetos são levados a efeito em nome da ADRA - Agên­cia de Desenvolvimento e Recur­sos Assistenciais. No entanto, a Igreja não participa de quaisquer greves e passeatas de índole políti­ca e partidária que acabariam com prometendo sua postura apolítica.

A validade de uma perspectiva que parta do interior para o exte­rior do ser humano é destacada por Cristo ao afirmar que "de dentro, do coração dos homens, é que proce­dem os maus desígnios, a prostitui­ção, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura" (Mar. 7:21, 22). Conseqüentemente, a solução cabal para esses problemas não está na mera formulação de novas leis ou no ativismo revolucionário, e sim, na conversão interior do ser humano. Nas palavras de Cristo, "limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fi­que limpo!" Mat. 23:26.

Um terceiro princípio funda­mental é que cada cristão adventista possui uma dupla cidadania ele é, acima de tudo, cidadão do reino de Deus e, em segundo plano, cidadão do país em que nasceu ou do qual obteve a cidadania. Conseqüente­mente deve exercer sua cidadania terrestre com base nos princípios cristãos de respeito ao próximo. Mesmo desaprovando situações de injustiça e exploração social, a Igreja Adventista do Sétimo Dia procura se relacionar respeitosamente com o governo civil e os partidos políticos de cada país em que exerce suas ati­vidades, sem com isso comprometer os princípios bíblicos.

Que o cristianismo não isenta os cristãos dos seus deveres civis é evidente na ordem de Cristo: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Mar. 12: 17. O Novo Testamento apresenta várias orien­tações a respeito do dever cristão de honrar os governos civis como instituídos por Deus (ver Rom. 13:1-7; Tito 3:1 e 2; I Pedro 2:13­17). Somente quando tais governos obrigam seus súditos a transgredi­rem as leis divinas é que o cristão deve assumir a postura de que "an­tes, importa obedecer a Deus do que aos homens”: Atos 5:29.

Candidatos adventistas

En­tre os direitos do cristão adventista no exercício de sua cidadania, está o de ocupar cargos políticos. O An­tigo Testamento menciona vários membros do povo de Deus que exerceram funções de grande pro­jeção no governo de importantes nações pagãs da época. Por exem­plo, José foi por muitos anos pri­meiro-ministro do Egito, a mais importante nação da época (Gên. 41:38-45). Colocado por Deus so­bre o trono daquele país (Gên. 45:7, 8), José se manteve "puro e imacu­lado na corte do rei"; e foi "um re­presentante de Cristo" aos egípcios (Medicina e Salvação, pág. 36; Pa­triarcas e Profetas, págs. 368-369). Daniel exerceu importantes cargos governamentais em Babilônia sob o reinado de Nabucodonosor, Bel­sazar, Dario e Ciro (Dan. 2:48, 49; 5:11, 12,29; 6:1-3, 28; 8:27). Com um apego incondicional aos prin­cípios divinos, Daniel e seus com­panheiros foram embaixadores do verdadeiro Deus na corte desses reis (ver Dan. caps. 1, 3 e 6).

A postura de José e Daniel nas cortes pagãs do Egito e de Babilônia, respectivamente, corrobora o fato de que é possível ser cristão sob governos não comprometidos com a religião bíblica. Mas o apri­sionamento de José (Gên. 39:7-23), o teste alimentar de Daniel e seus três companheiros (Dan. 1), a pas­sagem desses três companheiros na fornalha de fogo (Dan. 3) e a expe­riência de Daniel na cova dos leões (Dan. 6) comprovam que há um preço elevado a ser pago por aque­les que ocupam cargos públicos em ambientes hostis à verdadeira reli­gião. O exemplo do rei Salomão deixa claro que boas intenções ini­ciais (II Crôn. 1:1-13) podem ser corrompidas pela influência de ambientes vulgares (I Reis 11:1-15). Já a atitude do rei Ezequias para com a embaixada de Babilônia comprova que governantes temen­tes a Deus correm o risco de se or­gulharem de suas próprias conse­cuções (II Reis 20:12-19).

É interessante notarmos que José e Daniel foram nomeados para suas funções públicas pelos pró­prios monarcas da época. Mas hoje, na maioria das democracias modernas, as pessoas precisam se candidatar e concorrer a tais fun­ções em um processo bem mais competitivo. O fato de existirem políticos corruptos não significa que todo político seja corrupto. Embora a Igreja Adventista do Sé­timo Dia, normalmente, não enco­raje e nem desestimule a candida­tura política dos seus membros, ela também reconhece que a socieda­de contemporânea tem sido bene­ficiada pelo bom exemplo de al­guns políticos adventistas que con­correm honestamente a determi­nados cargos públicos e os exercem dignamente, sem comprometerem com isso os princípios bíblicos. A influência positiva de políticos ad­ventistas tem sido decisiva, em vá­rios países, para o estabelecimento de legislações que facilitem a ob­servância do sábado.

A Igreja espera que os adventis­tas que se candidatam a cargos po­líticos elegíveis sejam honestos em sua campanha e, se eleitos, tam­bém no exercício de suas funções políticas. Cada candidato deve conduzir o seu processo eleitoral-­político (1) sem assumir posturas ideológicas e partidárias contrárias aos princípios cristãos; (2) sem se valer de recursos financeiros ina­propriados; (3) sem prometer o que não possa cumprir; (4) sem de­negrir a reputação de outros candi­datos igualmente honestos; (5) sem se envolver com coligações não condizentes com a fé cristã-adven­tista; (6) sem jamais comprometer a observância do sábado em suas campanhas; e (7) sem minimizar seu compromisso pessoal com o estilo de vida adventista em coque­téis e confraternizações sociais.

Conheço igrejas locais que en­frentaram sérias desavenças inter­nas pelo fato de alguns dos seus membros se candidatarem a verea­dores por partidos rivais. É certo que os membros da igreja têm o di­reito, como cidadãos, de se candi­datarem e concorrerem a cargos elegíveis, bem como de procura­rem convencer outros à neles vota­rem. Mas nenhuma programação oficial de qualquer congregação ad­ventista deve ser usada como plata­forma política que comprometa a postura apolítica da denominação . Candidatos adventistas que usam eventualmente o púlpito devem pregar o evangelho, sem jamais fa­lar sobre política. Deus poderá abençoar ricamente os candidatos que exercerem honestamente sua cidadania, respeitando a posição apolítica da igreja e de seus obrei­ros, e promoverem a cordialidade e a unidade de nossas congregações.

Eleitores adventistas

Os membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia devem reconhecer ser seu dever individual escolher cons­cientemente em quem votar. O princípio básico é sempre votar em candidatos cuja ideologia, crenças, estilo de vida e propostas políticas estejam mais próximos dos princí­pios adventistas . Entre os princí­pios mais importantes estão: (1) liber­dade religiosa, (2) separação entre Igreja e Estado, (3) observância do sá­bado, (4) conduta moral, (5) temperança cristã, (6) apoio ao sistema educacio­nal privado mantido pela Igreja, e a (6) tentativa de melhorar a qualidade de vida das classes moral e econo­micamente desfavorecidas. A posi­ção da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre algumas dessas questões é enunciada no livro Declarações da Igreja (Tatuí, SP: CPB, 2003).

Ellen White adverte contra votar em candidatos sem compromisso com a liberdade religiosa: "Não po­demos, com segurança, votar por partidos políticos; pois não sabe­mos em quem votamos. Não pode­mos, com segurança, tomar parte em nenhum plano político. Não podemos trabalhar para agradar a homens que irão empregar sua in­fluência para reprimir a liberdade religiosa, e pôr em execução medi­das opressivas para levar ou com­pelir seus semelhantes a observar o domingo como sábado. O primeiro dia da semana não é um dia para ser reverenciado. É um falso sábado, e os membros da família do Senhor não podem ter parte com os ho­mens que o exaltam, e violam a lei de Deus, pisando Seu sábado. O povo de Deus não deve votar para colocar tais homens em cargos ofi­ciais; pois assim fazendo, são parti­cipantes nos pecados que eles co­metem enquanto investidos desses cargos:' - Fundamentos da Educa­ção Cristã, pág. 475.

Um dos maiores problemas na escolha de candidatos é a teoria de que "os fins justificam os meios": Se determinado candidato, mesmo sem compromisso com os princí­pios acima mencionados, promete beneficiar financeira ou politica­mente a Igreja, alguns líderes jul­gam pertinente apoiar tal candida­to em troca desses favores. Mas esse tipo de barganha política ja­mais deveria ser tolerado nos meios adventistas. Acima de quais­quer benefícios coletivos ou indivi­duais, deve estar o compromisso com os princípios adventistas.

Outro aspecto de especial inte­resse para os eleitores adventistas é a votação ou não em candidatos adventistas. Alguns crêem equi­vocadamente que, votando em candidatos adventistas, estariam ao mesmo tempo promovendo a liberdade religiosa e postergando os eventos finais. Mas é dever de todo o cristão-adventista exercer sua influência em favor da liberda­de religiosa (Mensagens Escolhi­das, vol. 2, pág. 375; Testemunhos para Ministros, págs. 200-203), contribuir positivamente para a fi­nalização da pregação do evange­lho (Mat. 24:14; 28:18-20), e dei­xar os eventos finais por conta de Deus (Atos 1:6-8).

Como membros do corpo de Cristo (I Cor. 12:12-31), deveríamos acabar com a falsa teoria de que "adventista não deve votar em adventista": Essa teoria só é aplicá­vel a candidatos que não vivem uma vida condizente com os prin­cípios adventistas ou cuja candida­tura visa apenas a obter benefícios pessoais, sem uma proposta políti­ca adequada. Mas, por outro lado, se os candidatos adventistas são os que mais próximo se encontram dos princípios que sustentamos e se eles possuem boa proposta polí­tica, então, não existe qualquer jus­tificativa plausível para se descar­tar tais candidatos simplesmente por serem adventistas.

Deveria ser considerada tam­bém a questão das eleições no sá­bado em países onde a votação é obrigatória. Este assunto foi trata­do por Mário Veloso em seu artigo "Os adventistas e a eleição no sába­do"; Revista Adventista (Brasil), ju­lho de 1986, págs. 19-20. Embora a Igreja Adventista do Sétimo Dia não discipline os membros que, por iniciativa pessoal, votem du­rante as horas do sábado, a reco­mendação é que isso seja evitado. O referido artigo foi escrito como um apelo aos políticos brasileiros para que houvesse um "prolonga­mento das horas para o exercício do voto, de tal maneira que os ad­ventistas possam votar depois do pôr-do-sol do sábado": A declara­ção de que Ellen White votaria até mesmo "no sábado" diz respeito à causa da temperança, ou seja, à lei seca de proibição da venda de bebi­das alcoólicas, em Des Moines, Iowa, em 1881 (ver Arthur L. Whi­te, Ellen G. White, vol. 3, págs. 158-­161). Mas essa declaração não pro­vê qualquer endosso à votação po­lítica em dia de sábado.

Conclusão

A Igreja Adventista do Sétimo Dia sempre manteve uma posição oficial apolítica de não se posicionar a favor ou contra qualquer regime ou partido políti­co. Essa posição é mantida em to­dos os níveis organizacionais e ins­titucionais da denominação, inclu­sive em suas congregações locais. Os obreiros assalariados pela de­nominação devem manter a mes­ma postura. Conseqüentemente, nenhum púlpito adventista e ne­nhuma reunião promovida oficial­mente pela denominação jamais deveria desfraldar qualquer ban­deira política. Ele é um lugar onde o evangelho eterno deve ser pro­clamado com o propósito de con­duzir à salvação em Cristo pessoas de todas as etnias e de todos os partidos políticos, sem preferên­cias e discriminações.

Por contraste, a Igreja faculta aos seus membros o direito indivi­dual de exercer sua cidadania, in­clusive a de se candidatar a cargos políticos e de exercê-los dignamen­te. Tanto no processo eleitoral como no exercício da função, espe­ra-se que cada adventista engajado em tais atividades mantenha uma postura digna de verdadeiro cris­tão adventista. Todos os políticos adventistas deveriam considerar a José e Daniel como seus modelos políticos. Deveriam sentir ser seu dever zelar pessoal e publicamente pela liberdade religiosa e pelos princípios cristãos em um mundo carente dos valores absolutos da verdadeira religião bíblica.

Todos os membros da igreja de­veriam votar conscientemente nos candidatos que melhor refletem os ideais adventistas. A escolha dos candidatos não deveria ser tanto por partido político, mas pela ideologia e os valores pessoais de cada um. Candidatos adventistas não deveriam ser discriminados simplesmente por serem adventis­tas, exceto se não demonstram uma conduta digna ou não pos­suam um plano de governo ade­quado. O voto de cada adventista deveria ser um testemunho autên­tico a favor da liberdade religiosa que facilite o cumprimento da missão adventista nestes dias finais da história humana.

Pr. Alberto Ronald Timm, Ph.D, reitor do SALT em Brasília, DF.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O debate adventista sobre a Trindade



Jerry Moon, Ph.D.
Diretor do Departamento de História Eclesiástica do Seminário
Teológico Adventista, Andrews University, Berrien Springs,
Michigan; editor da Andrews University Seminary Studies.


Resumo: Este artigo descreve o desenvolvimento da compreensão adventista da doutrina da Trindade ao longo de mais de um século e meio de história. O autor divide esse desenvolvimento em seis períodos, nos quais são mencionadas as respectivas contribuições literárias mais significativas sobre o assunto. Especial atenção também é dada à superação do antitrini-tarianismo inicial e ao ressurgimento contemporâneo desta teoria entre grupos dissidentes do adventismo.

Abstract: This article describes de development os the Seventh-day Adventist understanding of the doctrine of the Trinity over more then a century and a half of history. The author divides that development in six phases, in which the respective most important literary contributions on the subject are mentioned. Special attention is given to the supperation of early anti-Trinitarianism and its contemporary reapearence among Adven-tist offshut groups.

Introdução
Quarenta anos se passaram desde que Erwin R. Gane demonstrou que a maioria dos líderes entre os primeiros adventistas do sétimo dia defendiam uma teologia antitrinitariana.1 Ele também apresentou forte evidëncia para uma segunda hipótese: que a co-fundadora Ellen G. White era uma exceção à opinião da maioria. “Ela era”, asseverou, “uma monoteísta trinitariana”.2 Gane não tentou reconstruir a história da mudança desde a rejeição até à aceitação do trinitarianismo, mas tratou amplamente da atuação de Ellen White na mudança teológica. Documentando, porém, dois importantes pontos de partida, ele preparou o cenário para que outros investigadores levem adiante sua obra.

Desde então, vários autores têm aceitado aspectos destes dois grandes pontos de debate. Russell Holt, em 1969, baseado na tese de Gane, adicionou outra significativa evidência concernente a Tiago White, J. N. Andrews, A. C. Bourdeau, D. T. Bourdeau, R. F. Cottrell, A. T. Jones, W. W. Prescott, J. Edson White e M. L. Andreasen. Concluindo, Holt afirmou que até 1890 o “campo era dominado por” antitrinitarianos; de 1890 a 1900, “o rumo da denominação foi decidido por declarações de Ellen G. White”, e durante o período de 1900 a 1930 morreram muitos dos principais antitrinitarianos, de sorte que por volta de 1931 o trinitarianismo “havia triunfado e se tornado o ponto de vista oficial denominacional.” Assim, Holt aproximou a trajetória histórica da presente pesquisa, embora o tamanho de sua tese não permitisse tratamento em profundidade.

Dois anos depois, L. E. Froom, em Moviment of Destiny, apresentou um início mais antigo de trinitarianismo, afirmando que E. J. Waggoner, já no ano de 1888, tinha se tornado essencialmente trinitariano ou, no mínimo, “anti-ariano”, mas somente por “súplica especial” poderia ele sustentar este aspecto de sua hipótese.4 Contudo, Moviment of Destiny apresenta um exame mais detalhado das fontes primárias sobre trinitarianismo e antitrinitarianismo no movimento adventista do que pode ser encontrado em qualquer outro lugar. Pela magnitude, sua obra dá uma importante contribuição para a história da teologia adventista da Divindade.

Em 1996, Merlin Burt contribuiu com detalhes e necessária profundidade para a compreensão da doutrina na primeira metade do século vinte.5 Woodrow Whidden ampliou a discussão teológica sistemática unindo os avanços em soteriologia e a nova abertura ao trinitarianismo durante a década de 1888-1898.

Todas estas contribuições basicamente comprovam a tese original de Gane. Como resultado, sua afirmação de que muitos dos principais pioneiros do adventismo do sétimo dia eram antitrinitarianos em sua teologia, tornou-se história adventista aceita. Em 2003, porém, o significado dessa história para a fé e prática passou a ser mais calorosamente debatido do que nunca. Por um lado, alguns adventistas têm envolvido o antitrinitarianismo dos pioneiros em uma teoria de conspiração ecumênica, alegando que os dirigentes adventistas traíram a “verdade” original por amor às relações públicas, como um meio de desfazer a imagem sectária da denominação.7 Por outro lado, a questão sobre se a crença em Deus como uma Trindade é realmente bíblica recebe força adicional do fato de que alguns teólogos contemporâneos da mais vasta comunidade protestante estão aceitando novamente o questionamento histórico do trinitarianismo tradicional.

A finalidade deste artigo é examinar o processo de mudança na opinião adventista da Trindade, a fim de descobrir o que motivou as alterações, e também se elas resultaram de uma crescente compreensão bíblica ou se foram impulsionadas pelo desejo de sermos vistos como ortodoxos pela mais ampla comunidade cristã.
O desenvolvimento da doutrina da Divindade no adventismo do sétimo dia pode ser dividido em seis períodos: (1) Predominância antitrinitariana (1846-1888); (2) Insatisfação com o antitrinitarianismo (1888-1898); (3) Mudança de paradigma (1898-1913); (4) Declínio do antitrinitarianismo (1913-1946); (5) Predominância trinitariana (1946-1980); e Tensões renovadas (1980 até o presente). Os três primeiros períodos foram discutidos por Gane, Holt e Froom, e o período de 1888-1957, por Merlin Burt. Entretanto, nenhum desses lidam extensamente com os problemas trinitarianos durante a crise de Kellogg9 ou o período a partir de 1980.

Predominância antitrinitariana (1846-1888)
De cerca de 1846 a 1888, a maioria dos adventistas rejeitava o conceito da Trindade – ao menos como eles o entendiam. Todos os principais escritores foram antitrinitarianos, embora a literatura contenha referências ocasionais a membros que mantinham opiniões trinitarianas. Ambrose C. Spicer, pai de William Ambrose Spicer, Presidente da Associação Geral, tinha sido um ministro batista do sétimo dia antes da sua conversão ao Adventismo em 1874. Evidentemente, ele continuou trinitariano, porque W. A. Spicer relatou a A. W. Spalding que seu pai “ficou tão ofendido ante a atmosfera antitrinitariana de Battle Creek que deixou de pregar.”11 S. B. Whitney tinha sido trinitariano, mas no processo de sua doutrinação como adventista em 1861, tornou-se um convicto antitrinitariano. Sua experiência evidencia que no mínimo alguns ministros ensinavam o antitrinitarianismo como um elemento essencial da instrução dos novos conversos.12 R. F. Cottrell, por outro lado, escreveu na Review que, embora ele não acreditasse na Trindade, jamais “tinha pregado contra ela” ou escrito anteriormente sobre isto.13 Uma terceira partícula de evidência de que nem todos concordavam com o antitrinitarianismo foi a observação de D. T. Bourdeau em 1890: “Embora afirmemos ser crentes e adoradores de um só Deus, tenho pensado que há tantos deuses entre nós como existem concepções da Divindade.”14

Aqueles que rejeitavam a doutrina tradicional da Trindade dos credos cristãos eram crentes sinceros no testemunho bíblico concernente à eternidade de Deus o Pai, à divindade de Jesus Cristo “como Criador, Redentor e Mediador” e à “importância do Espírito Santo.”15 Conquanto alguns, muito cedo na história adventista, sustentassem que Cristo fora criado,16 era amplamente aceito por volta de 1888 que Ele tinha preexistido “em tempos tão remotos nos dias da eternidade que para a compreensão finita Ele era “praticamente sem princípio”. Seja qual for o princípio que possa estar envolvido, não foi por “criação”.17 Além disso, eles não estavam inicialmente convictos de que o Espírito Santo fosse uma Pessoa divina individual e não meramente uma expressão para a presença, poder ou influência divina.
“Com respeito à trindade, concluí que me era impossível crer que o Senhor Jesus Cristo, o Filho do Pai, fosse também o Deus Todo-poderoso, o Pai, um e o mesmo ser”, escreveu José Bates concernentemente à sua conversão em 1827. Disse ele ao seu pai: “Se você puder me convencer de que somos um neste sentido, de que você é meu pai, e eu seu filho; e também que eu sou seu pai, e você meu filho, então eu posso crer na trindade.” Por causa desta diferença, ele preferiu unir-se à Conexão Cristã em vez de à Igreja Congregacional de seus pais.18 Alguém poderia ser tentado a descartar a afirmação de Bates como simples ignorância do significado de Trindade, mas havia então, e permanece ainda hoje, uma variedade de pontos de vista reivindicando o termo “Trindade”. Cottrell observou em 1869 que havia “uma multidão de opiniões” sobre a Trindade, “todas elas ortodoxas, eu suponho, desde que havia um assentimento nominal à doutrina.”19

Os primeiros adventistas apresentavam no mínimo seis motivos para sua rejeição do termo “Trindade”. O primeiro era que eles não viam evidência bíblica para três pessoas em uma Divindade. Isto não era uma nova objeção.20 Em sua forma mais simples, o conceito de Trindade é o resultado de afirmar, pela autoridade das Escrituras, tanto a “unidade” quanto a “triunidade” de Deus, a despeito da incapacidade humana de compreender plenamente a Realidade pessoal e divina para a qual esses termos apontam. A maneira como isto pode ser explicado tem sido o objeto de muita reflexão e especulação através dos séculos. A influência da filosofia grega sobre o desenvolvimento doutrinal da história cristã primitiva e medieval é bem conhecido.21

O segundo motivo dado pelos primeiros adventistas para a rejeição da Trindade era a concepção errônea que tornava o Pai e o Filho idênticos. Já notamos o testemunho de Bates: “Com respeito à Trindade, concluí que me era impossível crer que o Senhor Jesus Cristo, o Filho do Pai, era também o Deus Todo-poderoso, o Pai, um e o mesmo ser.”22 D. W. Hull, J. N. Loughborough, S. B. Whitney e D. M Canright partilhavam desta opinião.23 O conceito de que o Pai e o Filho são idênticos aproxima-se de uma antiga heresia chamada Monarquianismo Modalista, ou Sabelianismo (de Sabélio, um dos seus proponentes do terceiro século). Os modalistas “afirmavam que na Divindade a única diferenciação era uma mera sucessão de modos ou operações.” Os modalistas negavam a triunidade de Deus e asseveravam que Pai, Filho e Espírito Santo não são personalidades separadas.24
Uma terceira e oposta objeção à doutrina da Trindade baseava-se na compreensão equivocada de que ela ensina a existência de três Deuses. “Se Pai, Filho e Espírito Santo são cada um de per si Deus, seriam três Deuses”, escreveu Loughborough em 1861.25
Uma quarta opinião era que a crença na Trindade diminuiria o valor da expiação.26 Eles arrazoavam que como “o Deus sempre vivo e auto-existente” não pode morrer, então se Cristo tivesse existência própria como Deus, Ele não poderia ter morrido no Calvário. Se apenas a humanidade morreu, então Seu sacrifício era meramente um sacrifício humano,inadequado para a redenção.27 Destarte, a fim de proteger a realidade de Sua morte na cruz, os primeiros adventistas achavam que eles tinham de negar que Cristo, em Sua preexistência, possuía divina imortalidade. Conquanto este raciocínio pudesse ter parecido lógico a alguns, suas premissas básicas foram terminantemente rejeitadas por Ellen White em 1897. Ela declarou que quando Jesus morreu na cruz, “a divindade não morreu. A humanidade morreu.”28 Sua influência sobre os leitores adventistas, e a confiança destes na fonte de sua informação era tal que as implicações de tal pronunciamento não podiam ser ignoradas, dando aos eruditos adventistas mais um motivo para reavaliar seu paradigma básico concernente à Divindade.

Quinto, o fato de que Cristo é chamado “Filho de Deus” e “o princípio da criação de Deus” (Ap 3:14) era cogitado para provar que Ele devia ser de origem mais recente do que Deus o Pai.29

Sexto, argumentava-se que “há várias expressões concernentes ao Espírito Santo que indicavam que ele [sic] não podia adequadamente ser considerado como uma pessoa, tais como sendo ‘derramado’ no coração [Rm 5:5], e ‘derramarei sobre toda a carne’ [Jl 2:28].”30 Estes argumentos, porém, dependiam de dar uma interpretação muito literal a expressões que podiam também ser vistas como figuras de linguagem. Estes argumentos faziam sentido dentro de um paradigma totalmente antitrinitariano, mas quando esse paradigma foi posto em dúvida, estes pontos foram reconhecidos como sendo capazes de se ajustarem a uma ou outra interpretação.
Nenhum destes é uma objeção válida ao conceito básico trinitariano de um Deus em três Pessoas.31 No entanto, todos eles eram baseados em textos bíblicos. Finalmente os adventistas mudaram seu ponto de vista da Divindade porque chegaram a uma compreensão diferente dos textos bíblicos.

Insatisfação com o antitrinitarianismo (1888-1898)
O enfoque em “Cristo nossa justiça”, dado pela sessão da Conferência Geral de 1888, e a conseqüente exaltação da cruz de Cristo, pôs seriamente em dúvida se uma divindade derivada, subordinada, podia adequadamente esclarecer o poder salvador de Cristo. E. J. Waggoner insistiu na necessidade de “apresentar a legítima posição de Cristo em igualdade com o Pai, a fim de que Seu poder para redimir pudesse ser melhor apreciado.”32 Conquanto por volta de 1890 Waggoner ainda não tivesse compreendido plenamente a infinitamente eterna preexistência de Cristo,33 ele argumentava convincentemente que Cristo não era criado, que “Ele tem ‘vida em Si mesmo’ [Jo 10:17]; Ele possui imortalidade inerente a Si mesmo.” Waggoner insistiu na “Divina unidade do Pai e do Filho” e afirmou que Cristo é “por natureza, da própria substância de Deus, e tendo vida em Si mesmo, Ele é adequadamente chamado Jeová, o Deus vivo” (Jr 23:36), “que está em uma igualdade com Deus (Fp 2:6, ARV), “tendo todos os atributos de Deus.”34 Waggoner não era ainda plenamente trinitariano, mas ele via claramente que uma concepção mais exaltada da obra de redenção realizada por Cristo exigia uma concepção mais alta do Seu ser como Divindade. “O fato de que Cristo é uma parte da Deidade, possuindo todos os atributos da Divindade, sendo igual ao Pai em todos os aspectos, como Criador e Legislador, é a única força que há na expiação... Cristo morreu ‘para levar-nos a Deus’ (1Pe 3:18); mas se Lhe faltava um jota de ser igual a Deus, não poderia levar-nos a Ele.”35 A força deste raciocínio leva inevitavelmente ao reconhecimento da plena igualdade de Cristo também em preexistência.

Desse modo, a dinâmica da justiça pela fé e suas conseqüências para a doutrina de Deus provê o contexto histórico para o provocante comentário de D. T. Bourdeau de que “embora afirmemos ser crentes e adoradores de um só Deus, tenho pensado que há tantos deuses entre nós como existem concepções da Divindade.”36 Tal observação de um evangelista e missionário altamente respeitado parece indicar que a confiança coletiva no paradigma antitrinitariano estava mostrando algumas rupturas. Outra evidência de que isto era assim apareceu dois anos depois, em 1892, quando a Pacific Press publicou um panfleto intitulado The Bible Doctrine of the Trinity (A Doutrina Bíblica da Trindade), de Samuel T. Spear. O panfleto corrigia dois conceitos equivocados prevalecentes da doutrina da Trindade, mostrando que ela “não é um sistema de triteísmo, ou a doutrina de três Deuses, mas é a doutrina de um Deus subsistindo e agindo em três pessoas, com a qualificação de que o termo ‘pessoa’... quando usado nesta relação, não deve ser compreendido em qualquer sentido que o tornaria incompatível com a unidade da Divindade.”37

Em 1898, Uriah Smith preparou Looking Unto Jesus, a mais compreensiva e cuidadosamente matizada exposição do ponto de vista não trinitariano entre os adventistas. Smith repudiou enfaticamente sua opinião anterior de que Cristo tinha sido criado, mas ainda mantinha que “somente Deus [o Pai] é sem princípio. Na época mais antiga quanto um princípio poderia ser – um período tão remoto que para mentes finitas é essencialmente eternidade –, apareceu o Verbo.” Através de algum meio não claramente revelado nas Escrituras, Cristo fora “gerado”, ou “por algum impulso ou processo divino, não criação”, Cristo fora trazido à existência pelo Pai. Em um parágrafo Smith surpreendentemente se aproxima de uma declaração trinitariana: “Esta união entre o Pai e o Filho não diminui a nenhum dos dois, mas fortalece a ambos. Por meio dela, em conexão com o Espírito Santo, temos toda a Divindade.”38 Mas esse vagaroso esforço em direção de uma compreensão mais ampla foi eclipsado pelas ousadas declarações de O Desejado de Todas as Nações, publicado no mesmo ano. O livro O Desejado de Todas as Nações produziu uma mudança de paradigma nas percepções adventistas da Divindade.

Mudança de paradigma (1898-1913)
O período de 1898-1913 testemunhou uma quase completa inversão do pensamento adventista sobre a Trindade. Digo quase porque essa mudança de paradigma não levou à unanimidade sobre o assunto. Como documentou Merlin Burt, alguns líderes pensantes que tendiam para a “velha opinião” permaneceram vocais, mas com influência decrescente, por muitos anos.39

Contudo, a publicação de O Desejado de Todas as Nações, de Ellen White, em 1898, tornou-se a linha divisória para a compreensão adventista da Trindade. Começando com o primeiro parágrafo do livro, ela pôs em dúvida a opinião dominante dos primeiros adventistas concernente à relação de Cristo com o Pai. Declarava sua terceira sentença do Capítulo 1: “Desde os dias da eternidade o Senhor Jesus Cristo era um com o Pai” (ênfase suprida). Todavia, mesmo isto não foi suficientemente inequívoco para esclarecer o seu ponto de vista no tocante à divindade de Jesus, pois como temos visto, outros tinham usado linguagem semelhante sem crer na infinitamente eterna preexistência de Cristo. Posteriormente no livro, escrevendo sobre a ressurreição de Lázaro, ela citou as palavras de Cristo: “Eu sou a ressurreição e a vida”, e fez, em seguida, um comentário de sete palavras que começaria a mudar a maré da teologia antitrinitariana entre os adventistas: “Em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada” (ênfase suprida).40 Em última análise, Cristo não derivava Sua vida divina do Pai. Como um homem sobre a Terra, Ele subordinou Sua vontade à vontade do Pai (Jo 5:19, 30), mas como Deus auto-existente, Ele tinha poder para depor Sua vida e tornar a tomá-la. Desse modo, comentando sobre a ressurreição de Cristo, outra vez Ellen White asseverou Sua plena divindade e igualdade com o Pai, declarando: “O Salvador saiu do sepulcro pela vida que havia em Si mesmo.”41

Essas declarações vieram como um choque para a liderança da Igreja. M. L. Andreasen, que havia se tornado adventista apenas quatro anos antes, na idade de 18 anos, e que eventualmente lecionaria no seminário norte-americano da Igreja, afirmou que o novo conceito era tão diferente da compreensão anterior que alguns líderes preeminentes duvidaram sobre se Ellen White realmente o havia escrito. Depois que Andreasen ingressou no ministério em 1902, ele fez uma viagem especial ao lar de Ellen White na Califórnia para investigar o assunto por si mesmo. Ellen White o recebeu e deu-lhe “acesso aos manuscritos”. Ele havia levado consigo “várias citações” para “ver se elas estavam no original do próprio manuscrito dela. Ele relembrou: “Eu estava certo de que a Irmã White jamais tinha escrito: ‘Em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada.’ Mas agora eu descobri em seu próprio manuscrito precisamente como ele tinha sido publicado. E assim era com outras declarações. Ao examinar, descobri que elas eram as próprias expressões da Irmã White.”42
O Desejado de Todas as Nações continha declarações igualmente inflexíveis concernentes à divindade do Espírito Santo. Empregava repetidamente o pronome pessoal “ele” ao referir-se ao Espírito Santo, culminando com a impressionante declaração: “O Espírito Santo... ia ser dado como agente de regeneração, sem o qual o sacrifício de Cristo de nenhum proveito teria sido... Ao pecado só se poderia resistir e vencer por meio da poderosa operação da terceira pessoa da Trindade, a qual viria, não com energia modificada, mas na plenitude do divino poder” (ênfase suprida).43 [O texto em inglês diz: Third Person of the Godhead – Terceira Pessoa da Divindade. A palavra Trinity (Trindade) não existe nos escritos de E. G. White. – Nota do Tradutor].

Estas e outras declarações similares levaram alguns a um novo exame da evidência bíblica acerca da Divindade. Outros, descrendo que tivessem estado em erro por tantos anos, estudaram para sustentar os velhos argumentos. O testemunho de Ellen White, porém, chamando a atenção para as Escrituras cujo significado tinha sido negligenciado,44 criou uma mudança de paradigma que não poderia ser revertida. Ao se voltarem os adventistas para as Escrituras para ver “se estas coisas eram assim” (Atos 17:11), chegaram finalmente a um crescente consenso de que o conceito básico da Trindade era uma verdade bíblica a ser aceita e abraçada.
Conquanto O Desejado de Todas as Nações pusesse em movimento uma mudança de paradigma no tocante à compreensão adventista da Divindade, ele não era a última palavra de Ellen White sobre o assunto. Posteriormente, durante a crise de Kellogg de 1902-1907, ela usou repetidamente expressões como “três pessoas vivas do trio celestial”, embora continuasse mantendo a unidade essencial da Divindade. Assim, ela afirmou a pluralidade e a unidade, a triunidade e a unicidade, os elementos fundamentais de uma compreensão simples e bíblica da Trindade.45

Evidência de que ao menos uma porção da liderança da Igreja reconheceu as declarações de O Desejado de Todas as Nações como removendo as objeções a uma doutrina bíblica da Trindade é um sumário das crenças adventistas publicado por F. M. Wilcox na Review and Herald, em 1913. Wilcox, editor do mais influente periódico denominacional, escreveu que “os adventistas do sétimo dia crêem 1) Na Trindade divina. Essa Trindade consiste do eterno Pai,... do Senhor Jesus Cristo,... [e] do Espírito Santo, a terceira pessoa da Divindade.”46

Declínio do antitrinitarianismo (1913-1946)

A despeito da declaração de Wilcox na Review (ou talvez por cauda dela), o debate sobre a Trindade intensificou-se nas primeiras décadas do século vinte. Na Conferência Bíblica de 1919, a eternidade de Cristo e Sua relação com o Pai foram os principais e não resolvidos assuntos do debate. Curiosamente, em vista da declaração de Ellen White, em O Desejado de Todas as Nações, de que a vida de Cristo era “não derivada”, até mesmo W. W. Prescott, o mais notável proponente de uma opinião trinitariana na conferência, defendia que a existência de Cristo era sob certos aspectos “derivada” do Pai.47 Isto pode constituir evidência de que a liderança não estava contente em simplesmente aceitar o pronunciamento de Ellen White sem examiná-lo por si mesmos nas Escrituras. Ou talvez, mostre a consciente ou inconsciente reflexão de Prescott sobre fontes clássicas trinitarianas.48

A polarização do Cristianismo americano entre modernismo e fundamentalismo nas primeiras duas décadas do século 20 tendia a aproximar os adventistas de uma posição trinitariana, sendo que em tantas outras áreas – como evolução, crença no sobrenatural, nascimento virginal de Cristo, milagres, ressurreição literal – os adventistas estavam em oposição aos modernistas e simpatizavam com os fundamentalistas.49

Em 1930, a Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia recebeu uma solicitação de sua Divisão Africana de que “uma declaração de fé dos adventistas fosse impressa no Year Book para ajudar “os oficiais do governo e outros a compreender melhor a nossa obra.” Em resposta, a Comissão da Associação Geral apontou uma subcomissão (que consistia de M. E. Kern, secretário associado da Associação Geral; F. M. Wilcox, editor da Review and Herald; E. R. Palmer, gerente da Review and Herald; e C. H. Watson, presidente da Associação Geral) a fim de preparar uma declaração das crenças adventistas.50 Wilcox, como o principal escritor entre eles, esboçou uma declaração de 22 pontos, que foi subseqüentemente publicada no SDA Year Book de 1931.51 O segundo ponto falava da “Divindade, ou Trindade”, e o terceiro afirmava “que Jesus Cristo é verdadeiro Deus”, um eco do credo niceno. Para que ninguém pense que os adventistas pretendiam formar um credo, “nenhuma aprovação formal ou oficial” foi procurada para a declaração. Quinze anos mais tarde, quando a declaração havia obtido aceitação geral, a assembléia da Associação Geral de 1946 a tornou oficial, votando que “nenhuma revisão desta Declaração de Crenças Fundamentais, como aparece agora no Manual da Igreja, deve ser feita em qualquer tempo exceto em uma assembléia da Associação Geral.”52 Isto assinalou o primeiro endosso oficial de uma opinião trinitariana pela Igreja, embora “o último dos bem conhecidos expositores” continuasse a “defender a ‘velha’ opinião” até a sua morte em 1968.53

Predominância trinitariana (1946-1980)

Desde a aposentadoria de F. M. Wilcox em 194454 até à publicação de Movement of Destiny em 1971,55 L. E. Froom foi o mais visível campeão do trinitarianismo entre os adventistas do sétimo dia. Seu livro The Coming of the Comforter (A Vinda do Consolador) foi sem precedentes entre os adventistas (exceto em algumas passagens de Ellen White) em sua exposição sistemática da personalidade do Espírito Santo e da natureza trinitariana da Divindade.56 A importante atuação de Froom no preparo da obra de 1957, Questions on Doctrine, tem sido amplamente documentada em outra parte.57 Questions on Doctrine despertou uma tempestade de controvérsia por certas declarações sobre cristologia e a expiação, mas sua clara afirmação da “Trindade celestial”58 permaneceu virtualmente incontestada – talvez porque M. L. Andreasen, o principal crítico do livro em outras áreas era um trinitariano convicto.59 A palavra final de Froom foi seu livro de 700 páginas Movement of Destiny publicado em 1971. Apesar dos “exemplos de defesa especial” e problemas de preconceitos históricos que “diminuem um pouco a obra como história confiável”,60 ele todavia documenta inteiramente o movimento da teologia adventista em direção de um consenso bíblico trinitariano.

O clímax desta fase de desenvolvimento doutrinal foi uma nova declaração de crenças fundamentais, votada pela assembléia da Associação Geral de 1980 em Dallas. A nova declaração de vinte e sete “Crenças Fundamentais”, como a declaração de 1931, afirmava explicitamente a crença na Trindade. A afirmação vinha no segundo artigo da declaração (em seguida a um preâmbulo e um primeiro artigo sobre a inspiração e autoridade das Escrituras). “2. A Trindade[.] Há um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, uma unidade de três Pessoas coeternas.”61 O artigo 4 afirma que “Deus o eterno Filho encarnou-Se em Cristo Jesus... Para sempre verdadeiro Deus, Ele tornou-Se também verdadeiro homem.”62 O artigo 5 declara que “Deus o eterno Espírito estava ativo com o Pai e o Filho na Criação, encarnação e redenção”, e foi “enviado pelo Pai e o Filho para estar sempre com Seus filhos.”63 Em vários pontos, a declaração ecoa a terminologia dos credos clássicos trinitarianos, até mesmo incluindo a cláusula do Filioquê com referência ao Espírito Santo.64

Uma breve recapitulação das declarações de fé adventistas pode esclarecer o significado do voto de 1980. A primeira Declaração de Princípios Fundamentais Ensinados e Praticados pelos Adventistas do Sétimo Dia (1872) foi a obra de Uriah Smith.65 Seus dois primeiros artigos tratam do Pai, Filho e Espírito Santo.
- I -
Que há um só Deus, um ser pessoal e espiritual, o criador de todas as coisas, onipotente, onisciente e eterno, infinito em sabedoria, santidade, justiça, bondade, verdade e misericórdia; imutável e presente em toda parte pelo seu representante, o Espírito Santo (Sl 139:7).
- II -
Que há um só Senhor Jesus Cristo, o Filho do Eterno Pai, por meio de quem Deus criou todas as coisas, e por meio de quem elas consistem; que ele tomou sobre si a natureza da semente de Abraão para a redenção de nossa raça caída; que ele habitou entre os homens cheio de graça e de verdade, viveu como nosso exemplo, morreu como nosso sacrifício, ressurgiu para nossa justificação, ascendeu às alturas para ser nosso único mediador no santuário do céu, onde, com o seu próprio sangue faz expiação por nossos pecados.66

É notável que embora não haja nenhuma referência ao termo Trindade, não há qualquer manifestação polêmica contra uma posição trinitariana. Smith estava se esforçando claramente para aderir tanto quanto possível à linguagem bíblica. A declaração representava um consenso na época, mas, em harmonia com sua explícita desaprovação no preâmbulo de qualquer declaração de credo,67 nunca lhe foi dada a aprovação oficial.

A segunda declaração de “Princípios Fundamentais” (1889), também de Uriah Smith,68 é igualmente uma declaração de consenso que evita estimular quaisquer pontos de discordância. Como acontece com a declaração de 1872, o preâmbulo mantém “nenhum credo senão a Bíblia”, e além disso afirma que “as seguintes proposições podem ser compreendidas como um sumário das principais características de sua [dos adventistas do sétimo dia] fé religiosa, sobre a qual existe, tanto quanto sabemos, inteira unanimidade em todo o corpo de crentes” (ênfase suprida).69 Evidentemente, Smith não considerava os excelentes pontos da doutrina da Divindade como tendo destaque entre as “principais características” da fé adventista naquele tempo, porque dificilmente ele poderia ter deixado de perceber que havia certos desacordos de pouca importância relacionados com a Trindade.70 O artigo I de 1872 (citado acima), foi reproduzido sem mudança na declaração de 1889. O artigo II da declaração de 1889 tem algumas modificações na linguagem acerca da obra de Cristo, mas nenhuma mudança substancial em sua referência à pessoa de Cristo.71 Uma vez que esses artigos aderem estritamente à terminologia bíblica, podem ser interpretados favoravelmente tanto por antitrinitarianos quanto por trinitarianos.

A terceira declaração de “Crenças Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia”,72 preparada sob a direção de uma comissão, foi realmente escrita por F. M. Wilcox, editor da Review and Herald.73 Quinze anos mais tarde, em 1946, ela tornou-se a primeira declaração a ter o endosso oficial de uma sessão da Associação Geral.74 Declara o artigo 2:
Que a Divindade, ou Trindade, consiste do Pai Eterno, um Ser pessoal, espiritual, onipotente, onipresente, onisciente, infinito em sabedoria e amor; o Senhor Jesus Cristo, o Filho do Eterno Pai, por intermédio de quem todas as coisas foram criadas e através de quem a salvação das hostes redimidas será realizada; o Espírito Santo, a terceira pessoa da Divindade, o grande poder regenerador na obra de redenção (Mt 28:19).75

Destarte, a declaração votada em Dallas em 1980 foi a quarta declaração de crenças fundamentais dos adventistas do sétimo dia, mas apenas a segunda a ser votada oficialmente por uma assembléia da Associação Geral. Poder-se-ia esperar que a adoção oficial da explicitamente trinitariana declaração de Dallas trouxesse encerramento ao debate de um século, mas ela demonstrou ser a precursora de tensões renovadas.

Tensões renovadas e prosseguimento do debate (1980 ao presente)
O período de 1980 até o presente tem sido caracterizado por renovado debate ao longo de um espectro de idéias desde as reacionárias às contemporâneas. Logo depois da declaração de Dallas – e talvez em reação a ela – vozes das “extremidades” da Igreja começaram a defender que as antigas opiniões dos pioneiros estavam corretas, que as declarações aparentemente trinitarianas de Ellen White tinham sido mal-interpretadas e que a declaração de Dallas representava apostasia das crenças bíblicas dos pioneiros.76 Alguns, em aparente ignorância do voto de 1946, criam que a declaração de Dallas era a primeira declaração de fé adventista oficialmente votada, e portanto, que sua própria existência era uma aberração do modelo histórico.77 Citações das fontes primárias, extraídas do seu contexto histórico e reacondicionadas em plausíveis teorias conspiratórias, mostravam-se bastante convincentes para muitos.78

Um incremento mais substancial era a incessante investigação para articular uma doutrina bíblica da Trindade, claramente diferenciada das pressuposições filosóficas gregas que envolviam as tradicionais declarações dos credos. Raoul Dederen havia apresentado em 1970 uma breve exposição da Divindade do Antigo e do Novo Testamento.79 Ele rejeitava a “Trindade do pensamento especulativo” que criava filosóficas “distinções dentro da Divindade para o que não havia base definível dentro do conhecimento revelado de Deus.” Em vez disso, ele defendia o exemplo dos apóstolos: “Rejeitando os termos da mitologia grega ou da metafísica, eles expressavam suas convicções em uma despretenciosa confissão de fé trinitariana, a doutrina de um só Deus subsistindo e agindo em três pessoas.”80

Edificando sobre esta linha de raciocínio, Fernando Canale, aluno de Dederen, apresentou em 1983 uma crítica radical das pressuposições filosóficas gregas destacando o 9
que Dederen havia classificado como “pensamento especulativo”. A tese doutoral de Canale, A Criticism of Theological Reason, afirmava que a teologia católica romana e a teologia clássica protestante tiravam seus mais básicos pressupostos acerca da natureza de Deus, tempo e existência, de uma “estrutura” provida pela filosofia aristotélica. Canale afirmava que para a teologia cristã tornar-se realmente bíblica, ela deveria derivar seus “pressupostos primordiais” das Escrituras, não da filosofia grega.81

No mais recente Handbook of Seventh-day Adventist Theology (2000), editado por Dederen, Canale foi o autor de um artigo magistral sobre as descobertas de sua contínua obra no que tange à doutrina de Deus. Novamente, Canale faz explicitamente a diferenciação entre uma doutrina de Deus baseada nas pressuposições filosóficas gregas e uma baseada nos pressupostos bíblicos,82 defendendo fortemente sua opinião de que somente através de uma disposição de “partir da concepção filosófica de Deus como atemporal” e “abraçar a concepção histórica de Deus conforme apresentada na Bíblia”, pode alguém descobrir um ponto de vista realmente bíblico da Trindade.83

A terceira linha de raciocínio procura localizar o trinitarianismo adventista no contexto da teologia sistemática contemporânea. Aprovando o descontentamento de Canale com a teologia clássica, mas conduzindo a crítica em uma direção diferente, estava a obra The Reign of God, de Richard Rice (1985). Rice afirmava que a Trindade estava implícita, embora não explícita, nas Escrituras.84 Fritz Guy, em Thinking Theologically (1999), concorda que “as formulações tradicionais” da doutrina da Trindade “não são inteiramente satisfatórias.”85 Ele deprecia uma percebida tendência em direção do triteísmo86 e favorece a atualização da linguagem para torná-la mais “funcional e do gênero neutro.”87 O livro de Guy, porém, não é uma exposição sistemática da doutrina de Deus ou da Trindade, e os leitores devem acautelar-se de ler demasiado em breves referências ilustrativas. A forma como suas sugestões finalmente afetarão a discussão ainda está para ser vista.

Conclusão
O longo processo de mudança desde a rejeição inicial do trinitarianismo dos credos pelos primeiros adventistas até à sua eventual aceitação de uma doutrina da Trindade poderia ser corretamente chamada de uma busca por uma Trindade bíblica. Eles não eram tão preconceituosos contra as fórmulas tradicionais, mas estavam decididos a seguir à risca sua doutrina o mais perto possível das Escrituras. A fim de basear suas crenças somente nas Escrituras e privar a tradição de exercer qualquer autoridade teológica, eles achavam metodologicamente essencial rejeitar toda doutrina não claramente fundamentada apenas nas Escrituras. Sendo que a doutrina tradicional da Trindade continha claramente elementos não escriturísticos, eles a rejeitaram.

Finalmente, porém, eles se convenceram de que o conceito básico de um só Deus em três pessoas era realmente encontrado nas Escrituras. Um artigo a ser publicado na próxima edição de Parousia considerará mais detalhadamente a atuação de Ellen White neste processo.
Referências:
1. Artigo traduzido do original em inglês por Francisco Alves de Pontes. Salvo indicação diversa, os textos bíblicos utilizados na tradução são extraídos da Versão Almeida Revista e Atualizada.
2. Erwin R. Gane, “The Arian or Anti-Trinitarian Views Presented in Seventh-day Adventist Literature and the Ellen G. White Answer” (dissertação de mestrado, Andrews University, 1963).
3. Russel Holt, “The Doctrine of the Trinity in the Seventh-day Adventist Denomination: Its Rejection and Acceptance” (Monografia, Seventh-day Adventist Theological Seminary, 1969), 25.
4. LeRoy Edwin Froom, Movement of Destiny (Washington, DC: Review and Herald, 1971), 279. Uma resenha crítica contemporânea chama o argumento de Froom a esta altura de um exemplo de “defesa especial” (C. Mervyn Maxwell, resenha crítica de Movement of Destiny por LeRoy Edwin Froom, in AUSS 10 [janeiro de 1972]: 121).
5. Merlin Burt, “Demise of Semi-Arianism and Anti-Trinitarianism in Adventist Theology, 1888-1957” (monografia, Andrews University, 1996). Ellen G. White Research Center, Andrews University. A dissertação de Burt estende alguns elementos da história até 1968.
6. Woodrow W. Whidden, “Salvation Pilgrimage: The Adventist Journey into Justification by Faith and Trinitarianism,” Ministry, abril de 1998, 5-7.
7. David Clayton, “The Omega of Deadly Heresies,” s.e., s.d. [ca. 2000], nos arquivos do autor. Cf. Idem, “Some Facts Concerning the Omega Heresie”, www.restorationministry.com/open face/ html/2000/open face/2000.html; acessado em 10 de março de 2003. Veja também Bob Deiner e outros em nn. 76-78 abaixo.
8. Veja e.g., Anthony F. Buzzard e Charles F. Hunting, The Doctrine of the Trinity, Christianity’s Self-Inflicted Wound (Bethesda, MD: Christian Universities Press, 1998).
9. Veja Froom, 349-356. A aceitação do trinitarianismo por J. H. Kellogg será explorada em artigo a ser publicado na próxima edição de Parousia.
10. Veja Fernando L. Canale, “Doctrine of God,” em Handbook of Seventh-day Adventist Theology, ed. Raoul Dederen, Commentary Reference Series, vol. 12 (Hagerstown, MD: Review and Herald, 2000), 117-118, 126, 128-129, 132, 138-140, 145, 148-150.
11. A. W. Spalding para H. C. Lacey, 2 de junho de 1947, Adventist Heritage Center, Andrews University.
12. Seymour B. Whitney, “Both Sides,” Review and Herald, 25 de fevereiro e 4 de março de 1862, 101-103, 109-111.
13. R. F. Cottrell, “The Doctrine of the Trinity,” Review and Herald, 1º de junho de 1869.
14. D. T. Bourdeau, “We May Partake of the Fullness of the Father and the Son,” Review and Herald, 18 de novembro de 1890, 707.
15. Gane, 109.
16. E.g., Uriah Smith, Thoughts, Critical and Practical on the Book of Revelation (Battle Creek, MI: Seventh-day Adventist Publishing Association, 1865), 59. Posteriormente ele repudiou esta opinião (idem, Looking Unto Jesus [Battle Creek: Review and Herald, 1898], 12, 17).
17. E. J. Waggoner, Christ and His Righteousness (Oakland, CA: Pacific Press, 1890), 21-22; cf. Uriah Smith, Looking Unto Jesus, 12, 17.
18. Joseph Bates, The Autobiography of Elder Joseph Bates (Battle Creek, MI: SDA Publishing Association, 1868), 205.
19. Cottrell, The Doctrine of the Trinity.
20. Os nomes de Ário, Serveto e Socino vêm à mente. Deuteronômio 6:4 ensina claramente que Deus é um, mas embora o escritor pudesse ter usado o termo yakid para denotar um solitário “um”, o termo escolhido foi o hebraico ‘ekad, que denota um composto “um” ou um de um grupo, em contraste com um solitário ou enfático “um”. A mesma palavra, ‘ekad, é usada em Gênesis 2:24 para a unidade de marido e mulher, que se tornam “um”, mas dentro desta unidade, ainda retêm sua individualidade (Woodrow Whidden, “The Strongest Bible Evidence for the Trinity,” in The Trinity: Understanding God’s Love, His Plan of Salvation, and Christian 11
Relationships, Woodrow Whidden, Jerry Moon e John Reeve [Hagerstown, MD: Review and Herald, 2002], 33-34). Uma extensa discussão da evidência bíblica está além do escopo deste artigo, mas basta dizer que o Antigo e o Novo Testamento contêm indicações de que o Único Deus não é meramente solitário, e o Novo Testamento explicitamente se refere ao Pai, Filho e Espírito Santo (veja, por ex., Mt 28:19, 2Co 13:13) (ibid., 21-117).
21. Veja Jerry Moon, “The Trinity in the Reformation Era: Four Viewpoints,” in The Trinity: Understanding God’s Love, His Plan of Salvation, and Christian Relationships, 166-181.
22. Bates, 205.
23. Gane, 104.
24. F. L. Cross, ed., Oxford Dictionary of the Christian Church, 2d ed. (Oxford: Oxford University Press, 1983), “Monarchianism” (veja também “Modalism” e “Sabellianism”).
25. J. N. Loughborough, “Questions for Bro. Loughborough,” Advent Review and Sabbath Herald de 5 de novembro de 1861, 184.
26. Gane, 105.
27. J. H. Waggoner, The Atonement [Oakland, CA: Pacific Press, 1884), 173. Smith faz uma argumentação semelhante em Looking Unto Jesus, 23.
28. E. G. White, Manuscrito 131, 1897, citado em SDA Bible Commentary, ed. Francis D. Nichol (Washington, DC: Review and Herald, 1954), 5:1113. Posteriormente ela escreveu outra vez: “A humanidade morreu: a divindade não morreu” (idem, “The Risen Savior,” Youth’s Instructor, 4 de agosto de 1898, parágrafo 1).
29. Uriah Smith, Thoughts on the Book of Daniel and the Revelation (Battle Creek, MI: Review and Herald, 1882), 487; idem, Looking Unto Jesus, 10.
30. Uriah Smith, “In the Question Chair,” Review and Herald, 23 de março de 1897, 188.
31. O termo “pessoa”, conforme aplicado a Deus indica um ser com personalidade, intelecto e vontade. Dessemelhantes dos múltiplos deuses do politeísmo, as três pessoas da Divindade bíblica são profundamente “um em propósito, em mente, em caráter, mas não em pessoa.” Assim, a despeito de sua individualidade, eles nunca estão divididos, nunca em conflito, e deste modo não constituem três deuses, mas um só Deus.
32. Waggoner, 19.
33. Ibid., 21-22.
34. Ibid., 22-23, 25.
35. Ibid., 44.
36. Bourdeau, 707.
37. Samuel T. Spear, “The Bible Doctrine of the Trinity, Bible Students,” Library, nº 90 (março de 1892), 3-14, reimpresso de New York Independent, 14 de novembro de 1889.
38. Smith, Looking Unto Jesus, 3, 10, 17, esp. 13.
39. De acordo com Burt, 54, o último dos adventistas antitrinitarianos dos “velhos tempos” morreu em 1968. Uma nova geração de neo-antitrinitarianos surgiria na década de 1980 (veja abaixo).
40. E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, 22ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), 530.
41. Ibid., 785, veja também os próximos dois parágrafos.
42. M. L. Andreasen, “The Spirit of Prophecy,” palestra em Loma Linda, Califórnia, 30 de novembro de 1948, Adventist Heritage Center, Andrews University, 3-4.
43. White, O Desejado de Todas as Nações, 669-671.
44. Textos bíblicos citados por Ellen White apoiando vários aspectos de uma opinião trinitariana inclusive Rm 8:16 (Evangelismo, 3ª ed [Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1999], 617); 1Co 2:10-14 (ibid.); Jo 16:7-14 (ibid., 616); Jo 14:16-18, 26; 16:8, 12-14 (O Desejado de Todas as Nações, 669-671); e Cl 2:9 (Evangelismo, 614).
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45. Estas declarações e seu contexto na crise de Kellogg serão tratados com mais detalhes em artigo a ser publicado na próxima edição de Parousia.
46. [F. M. Wilcox], “The Message for Today,” Review and Herald, 9 de outubro de 1913, 21. Sou grato a Bill Fagal do Centro de Pesquisa Ellen White da Andrews University por me chamar a atenção para esta fonte.
47. W. W. Prescott, “The Person of Christ,” apresentação de 2 de julho de 1919 in “Bible Conference Papers 1-8, 1-19 de julho de 1919” [paginação contínua, p. 69; 2 de julho, sessão da tarde, p. 20], Adventist Heritage Center, Andrews University; veja também Burt, 25-27.
48. A geração do Filho pelo Pai é uma formulação agostiniana (Oxford Dictionary of the Christian Church, “Trinity, Doctrine of the.” Cf. W. W. Prescott, The Doctrine of Christ: A Series of Bible Studies for Use in Colleges and Seminaries (Washington, DC: Review and Herald, 1920), 3, 20-21; veja também Burt, 30-33.
49. Prescott, 33.
50. “General Conference Committee Minutes”, 29 de dez. De 1930, 195, Adventist Heritage Center, Andrews University.
51. Froom, 413-414.
52. “Fifteen Meeting,” General Conference Report Nº 8, Review and Herald, 14 de junho de 1946, 197. Froom, 419, atribui esse voto à sessão de 1950. Ele, evidentemente, leu sua fonte com muita pressa; a sessão de 1950 apenas reiterou o voto da sessão de 1946 (“Fifteen Meeting,” General Conference Report Nº 10, Review and Herald, 23 de julho de 1950, 230).
53. Burt, 54.
54. Wilcox foi editor da Review and Herald (atualmente Adventist Review), o periódico geral da Igreja dos Adventistas do Sétimo Dia, de 1911 a 1944 (SDA Encyclopedia [Hagerstown, MD: Review and Herald, 1996], “Wilcox, Francis McClellan”).
55. Veja nota 3, acima.
56. LeRoy Edwin Froom, The Coming of the Comforter, ed.rev. (Washington, DC: Review and Herald, 1949), 37-57. Cf. E. G. White, Special Testimonies, Series B, nº 7 (1905), 62-63.
57. [L. E. Froom, W. E. Read e R. A. Anderson,] Seventh-day Adventists Answer Questions on Doctrine (Washington, DC: Review and Herald, 1957); cf. T. E. Unruh, “The Seventh-day Adventist Evangelical Conferences of 1955-1956,” Adventist Heritage Nº 4 (Fourth Quarter 1977), 35-46; e Jerry Moon, “M. L. Andreasen, L. E. Froom, and the Controversy over Questions on Doctrine” (monografia, Andrew University, 1988).
58. Froom, Read e Anderson, 36-37, 645-646.
59. M. L. Andreasen, “Christ, the Express Image of God,” Review and Herald, 17 de outubro de 1946, 8; veja também Burt, 43.
60. Maxwell, 119-122.
61. Manual da Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), 9.
62. Ibid., 33.
63. Ibid.
64. Veja Oxford Dictionary of the Christian Church, “Filioque.”
65. Uriah Smith, A Declaration of the Fundamental Principles Taught and Practiced by the Seventh-day Adventists (Battle Creek, MI: SDA Publishing Association, 1872), 1.
66. Ibid., 2-3.
67. O parágrafo inicial de Smith declara: “Ao apresentar ao público esta sinopse de nossa fé, desejamos que seja distintamente compreendido que não temos nenhum artigo de fé, credo ou disciplina, além da Bíblia. Não apresentamos isto como tendo qualquer autoridade sobre nosso povo, nem é destinada a assegurar uniformidade entre ele, como um sistema de fé, mas é uma breve declaração do que é e tem sido, com grande unanimidade, mantida por ele. Com freqüência achamos necessário responder a indagações sobre este assunto... Nosso único objetivo é satisfazer a esta necessidade” (ibid., 1).
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68. “Fundamental Principles,” SDA Year Book, (Battle Creek, MI: SDA Publishing Association, 1889), 147-151.
69. Ibid., 147.
70. A declaração de D. T. Bourdeau, atestando que havia entre os adventistas do sétimo dia “muitas... concepções da Divindade”, apareceu na Review and Herald, da qual Smith era o editor, somente um ano mais tarde.
71. A única mudança na parte que se referia à pessoa de Cristo foi a substituição do pronome “ele” [sic] pelo nome pessoal “Deus” na primeira sentença. Diz a declaração de 1889: “Há um só Senhor Jesus Cristo, o Filho do Eterno Pai, aquele por quem ele criou todas as coisas” (“Fundamental Principles,” Seventh-day Adventist Year Book [1889], 147).
72. “Fundamental Beliefs of Seventh-day Adventists,” Seventh-day Adventist Year Book, (Washington, DC: Review and Herald, 1931), 377-380.
73. Para detalhes do processo, veja Froom, 413-415.
74. “Fifteen Meeting,” General Conference Report Nº 8, Review and Herald, 14 de junho de 1946, 197.
75. “Fundamental Beliefs of Seventh-day Adventists,” Seventh-day Adventist Year Book, (1931), 377.
76. “The Doctrine of the Trinityin Adventist History,” Liberty Review [5250] Johnstown Road, Mt. Vernon, Ohio], outubro de 1989, 4-5, 7-8. Cf. Lynnford Beachy, “Adventist Review Perpetuates the Omega,” Old Paths Smyrna Gospel Ministries, HC64, Box 128-B, Welch, WV; website www.smyrna.org], vol. 8, nº. 7, julho de 1999, 1-14.
77. “The Doctrine of the Trinity in Adventist History,” Liberty Review, outubro de 1989, 7.
78. Veja esp. Clayton, ref. nº 6 acima; e Bob Diener, The Alpha and the Omega (Creal Springs, IL: Bible Truth Productions, n.d. [ca. 1998], videocassete.
79. Raoul Dederen, “Reflections on the Doctrine of the Trinity,”AUSS 8 (1970) 1-22.
80. Ibid., 13, 21.
81. Fernando Luis Canale, A Criticism of Theological Reason: Time and Timelessness as Primordial Presuppositions, Andrews University Seminary Doctoral Dissertation Series, vol. 10 (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1983), 359; 402, nº 1.
82. Canale, “Doctrine of God,” 105-159; veja esp. 117-118, 126, 128-129, 132, 138-140, 145, 148-150.
83. Ibid., 150.
84. Richard Rice, The Reign of God, 2ª ed. (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1985), 60-61.
85. Fritz Guy, Thinking Theologically: Adventist Christianity and the Interpretation of Faith (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 1999), 130; veja também 70, 88, 151, e suas notas.
86. Ibid., 70.
87. Ibid., 151.
Fonte: Parousia, ano 4, nº 2 (2º semestre de 2005), p. 19-30. Usado com permissão. 14

Resenha crítica do livro ‘Eu e o Pai Somos Um’


Alberto R. Timm, Ph.D.1
Professor de Teologia Histórica no Salt, Unasp,
Campus Engenheiro Coelho, e diretor do Centro
de Pesquisas Ellen White - Brasil


Resumo: O presente artigo provê uma resenha crítica do livro antitrinitariano “Eu e o Pai Somos Um”, 2ª ed. (São Paulo: Ministério Bíblico Cristão, 2004), de autoria de Ricardo Nicotra. Após a menção de alguns antecedentes históricos, o artigo analisa criticamente a referida obra da perspectiva da relevância do tema abordado, do uso de fontes bibliográficas, das pressuposições do autor, dos recursos retóricos empregados, dos princípios de interpretação sugeridos e das interpretações pessoais do autor. Entre as interpretações pessoais analisadas se encontram a preservação das Escrituras, o conceito bíblico de mistério, a teoria da “Bindade”, o Filho gerado, a emanação do Espírito divino, o parákletos divino, o trono do Espírito Santo e a autenticidade de Mateus 28:19.

Abstract: The present article provides a critical review of Ricardo Nicotra’s anti-Trinitarian book titled “Eu e o Pai Somos Um” [“I and My Father Are One”], 2nd ed. (São Paulo: Ministério Bíblico Cristão, 2004). After a few historical-background remarks, this article presents a critical analysis of that book from the perspective of the relevance of the subject under consideration, the use of bibliographical sources, the author’s presuppositions, the use of rhetorical devices, the suggested principles of interpretation, and the author’s private interpretations. The private interpretations analyzed include the preservation of the Scriptures, the biblical concept of mystery, the “Binity” theory, the generated Son, the emanation of the Holy Spirit, the divine parákletos, the throne of the Holy Spirit, and the authenticity of Matthew 28:19.

Introdução
Muitos cristãos preferem hoje acreditar em um Deus mais imanente e explicável, recriado à própria imagem e semelhança humanas, do que no Deus transcendente e infinito, como revelado nas Escrituras (Rm 11:33). A própria essência da religião cristã tem sido desafiada por diferentes teorias que questionam a doutrina bíblica da Trindade e tentam redefinir a natureza de Deus. Várias dessas teorias são analisadas criticamente na obra God under Fire: Modern Scholarship Reinvents God (2002), editada por Douglas S. Huffman e Eric L. Johnson.2 Lamentavelmente, porém, desde a década de 1990 algumas dessas teorias vêm se infiltrando também em círculos adventistas cuja suposta crença na inspiração dos escritos de Ellen G. White parecia mantê-los imunes a elas.

Os dissidentes antitrinitarianos adventistas contemporâneos pretendem restaurar os ensinos antitrinitarianos dos pioneiros adventistas,3 mas diferem radicalmente deles no que diz respeito à confiabilidade nas Escrituras. Os pioneiros adventistas criam que os manuscritos originais da Bíblia e de Ellen G. White são plenamente confiáveis em todos os seus ensinos,4 pois Deus os preservou e ainda os preserva livres de interpolações heréticas, em suas línguas originais. Já os atuais antitrinitarianos não se constrangem em questionar a integridade dos escritos inspirados, alegando que estes foram distorcidos pelo acréscimo de interpolações heréticas com o propósito de apoiar a doutrina supostamente “antibíblica” da Trindade. Se esse fosse o caso, então nem a Bíblia e nem os escritos de Ellen G. White poderiam ser considerados plenamente confiáveis.

Em resposta às alegações antitri-nitarianas, a Review and Herald Publishing Association publicou em 2002 a obra de 288 páginas intitulada The Trinity, de autoria de Woodrow Whidden, Jerry Moon e John W. Reeve.5 O livro foi traduzido e lançado em língua portuguesa, pela Casa Publicadora Brasileira, sob o título A Trindade (2003).6 A obra ajudou muitas pessoas a entender melhor, não apenas as raízes históricas das discussões contemporâneas, mas também o embasamento da doutrina da Trindade na Bíblia e nos escritos de Ellen G. White. Mas a circulação desse livro acabou desafiando alguns antitrinitarianos brasileiros a publicar suas próprias idéias de maneira mais contundente e acusatória, tentando responder a alguns dos argumentos apresentados em A Trindade e desconsiderando a muitos outros.
Uma das publicações antitrinitarianas que apareceram no Brasil, após o lançamento de A Trindade, foi o livro de 108 páginas intitulado “Eu e o Pai Somos Um” (2004), de Ricardo Nicotra.7 O título aparece grafado entre aspas no original por ser uma expressão bíblica extraída de João 10:30. Publicado pelo assim chamado “Ministério Bíblico Cristão”, o livro foi impresso em Contenda, Paraná, na gráfica do Ministério 4 Anjos, ministério este que compartilha das mesmas idéias. Além disso, o livro foi também disponibilizado em alguns websites antitrinitarianos. Com um estilo simples, retórico e homilético, o conteúdo de “Eu e o Pai Somos Um” é de fácil compreensão e auto-elucidativo, podendo-se detectar com facilidade suas inconsistências. Mas diante de freqüentes solicitações de uma resposta mais detalhada ao conteúdo do livro, julgamos conveniente preparar e publicar a presente análise crítica.
É difícil avaliar precisamente quanto das idéias de “Eu e o Pai Somos Um” são de fato originais do autor. Mas, como o próprio livro identifica a Ricardo Nicotra como o seu autor, assumimos no presente estudo que todas as idéias não devidamente creditadas a outras fontes são de sua própria autoria ou, pelo menos, endossadas por ele. As páginas indicadas entre parênteses, ao longo do conteúdo básico do presente artigo, se referem sempre à paginação da 2ª edição do livro “Eu e o Pai Somos Um” em que as respectivas informações mencionadas podem ser encontradas.

Antecedentes históricos


Ricardo Nicotra, filho de João Nicotra e Maria Garcia Nicotra, nasceu no dia 28 de dezembro de 1972 em São Paulo, SP. Naquela cidade estudou Matemática (1989); graduou-se em Ciências da Computação (1990-1993); freqüentou por dois anos um curso de Administração de Empresas (1994-1995); concluiu um programa de MBA (2003-2004); e freqüentou ainda por um semestre a Faculdade de Direito (2005). Sua carreira profissional inclui passagens por algumas empresas multinacionais e instituições bancárias. Em setembro de 2005 mudou-se para Washington, DC, onde passou a exercer a função de Consultor de Sistemas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Como filho de família adventista, Nicotra foi batizado na Igreja Adventista do Sétimo Dia do Ipiranga, São Paulo, em 4 de dezembro de 1982 pelo pastor Edgard da Silva Pereira. Naquela igreja, exerceu as funções de professor dos Juvenis, diretor de Jovens Adventistas, diretor de Ação Missionária e diretor da Escola Sabatina. Em setembro de 1993, passou a freqüentar o recém-formado grupo adventista de São João Clímaco, onde exerceu as funções de pianista do Coral e da congregação, bem como diretor e tesoureiro. Quando a congregação foi organizada como Igreja, Nicotra passou a ser um dos anciãos. A primeira sede do grupo era num imóvel alugado, e a sede própria só foi comprada em 1996. O valor pago pelo terreno e pelo prédio foi de aproximadamente R$ 67.000,00. O caixa da Igreja dispôs de R$ 25.000,00, a Associação Paulistana contribui com R$ 5.000,00, o pastor Voltaire Cavalieri com aproximadamente R$ 10.000,00 e o valor restante foi parcelado com notas promissórias. Nicotra pagou com recursos próprios as notas no valor de R$ 10.000,00, e ao longo dos dois anos seguintes a igreja local reembolsou esse valor.
Insatisfeito com o valor doado pela Associação local, Ricardo pesquisou o Livro de Praxes da Divisão Sul-Americana9 e começou a questionar os relatórios financeiros da Associação local e a estrutura administrativa da igreja em geral, por meio de artigos na Internet e chats adventistas. Por causa das suas críticas, foram convocadas duas reuniões para tratar do assunto, uma na Igreja de São João Clímaco e outra na sede da Associação Paulistana. Na segunda reunião estiveram presentes os pastores Leonício Lisboa, departamental de Mordomia (hoje também chamado de Ministério da Fidelidade); Jetro Ferreira da Silva, secretário Ministerial; e Valter da Silva Araújo, pastor distrital. Nicotra solicitou um relatório simplificado das entradas e saídas da Associação, mas não foi atendido, o que gerou mais críticas de sua parte.
Entre 1998 e 1999, Nicotra fundou o Movimento de Obreiros Voluntários Adventistas (Mova) que arrecadava doações de membros da Igreja Adventista para financiar obreiros bíblicos. Ele canalizava o seu próprio dízimo para o referido movimento, que continuaria apenas até abril de 2000. O nome de Ricardo Nicotra foi removido do rol de membros da Igreja de São João Clímaco em 11 de dezembro de 1999, época em que Valter da Silva Araújo ainda era o pastor distrital. Nicotra ficou aguardando a comunicação por escrito da igreja sobre sua exclusão, mas isso não ocorreu. Ele solicitou então sua readmissão como membro, com direito a uma reunião plenária com a igreja local para expor sua defesa. Isso não lhe foi concedido, mas ele a continuou freqüentando até 2001.
Em 14 de julho de 2001 ele começou a freqüentar reuniões na casa de Mário Ângelo Fragnan, no Jardim Vera Cruz, São Paulo, com um grupo de aproximadamente 20 ex-membros da Igreja do Parque São Rafael, São Paulo. Em julho de 2003, esse novo grupo comprou um terreno para a construção de uma igreja e, em julho de 2004, começou a congregar no prédio ainda inacabado. Em 16 de julho de 2005 inauguraram a nave da nova igreja com capacidade para 100 pessoas, com o nome de “Igreja Cristã Bíblica Adventista”, com sede no Jardim Vera Cruz. Em setembro de 2005 o grupo contava com aproximadamente 50 membros, mas a mudança de Nicotra para os Estados Unidos acabou enfraquecendo o grupo.
Em 2002, as idéias antitrinitarianas passaram a ser propagadas mais enfaticamente no Brasil pela Internet. No ano seguinte (2003), o grupo dissidente que já se reunia na casa do sr. Mário começou a discutir se deveria ou não tomar alguma posição sobre o assunto. No final daquele ano, Nicotra começou a pesquisar mais detidamente o tema, e passou a aceitar tais idéias. Já em 2004 ele publicou o livro “Eu e o Pai Somos Um”, cujo conteúdo é o objeto básico da análise crítica provida no presente artigo.

Relevância do tema
O livro “Eu e o Pai Somos Um” reflete a compreensão de Ricardo Nicotra sobre Deus, com especial ênfase em sua interpretação do inter-relacionamento entre o “Pai” (pessoa), o “Filho” (pessoa) e o “Espírito Santo” (apenas espírito). Sem questionarmos ainda a validade dessa interpretação, podemos dizer que o tema sobre o qual o autor escolheu dissertar é de suprema relevância teológica, histórica e escatológica. Da perspectiva teológica, devemos reconhecer que o conhecimento experiencial de Deus é não apenas o mais importante conhecimento que seres humanos podem obter (Pv 9:10), mas também a própria condição para a vida eterna (Jo 17:3). No entanto, como um dos pilares da fé cristã, o assunto da natureza de Deus deve ser tratado com o máximo de reverência e de cuidado possíveis, permitindo que a razão e a lógica humana se curvem diante da revelação divina.

Já a importância histórica deriva do fato de este ter sido o tema central de muitos debates teológicos dos primeiros séculos da Era Cristã. O assunto mereceu atenção especial também dos adventistas do sétimo dia entre o final do século 19 e o início do século 20. A despeito de toda a literatura já produzida sobre o assunto, esta é, sem dúvida, uma questão cíclica que tem sido debatida em outros momentos da história cristã, e que ressurgiu em anos recentes também em alguns círculos adventistas. Como parte dos debates teológicos contemporâneos, o tema merece ser analisado em mais profundidade, de modo a prover respostas convincentes a todos aqueles que sincera e honestamente indagam a respeito da razão de nossa fé (cf. 1Pe 3:15).

Em face à relevância teológica e histórica da doutrina de Deus, é de se esperar que ela assuma também uma importância escatológica nos conflitos finais entre a verdade e o erro, que se intensificarão antes da segunda vinda de Cristo (ver 1Tm 4:3, 4). A pergunta básica nesses conflitos é: Quem é digno de adoração? – a besta ou Deus (Ap 13:12; 14:7, 9-12)? Não é de surpreender, portanto, que nestes últimos dias Satanás procurará confundir a mente dos “próprios eleitos” a respeito da natureza de Deus (cf. Mt 24:24). Além disso, como o assim chamado “alfa da apostasia” envolvia a negação da personalidade de Deus através da teoria panteísta de John H. Kellogg,10 não seria possível que o “ômega da apostasia”11 representasse a negação da personalidade de pelo menos um dos membros da Divindade (neste caso a do Espírito Santo)? Não seria de se esperar que, numa época da história em que a Igreja mais precisa do poder do Espírito Santo por meio da “chuva serôdia” (Jr 5:24; Os 6:3; Jl 2:23), os poderes do mal tentariam levar as pessoas a questionar a própria personalidade do Espírito Santo a fim de neutralizar a Sua obra?
Seja como for, a doutrina de Deus é demasiadamente importante para ser considerada uma questão de mera “interpretação pessoal”, ou de “ponto de vista particular”, ou mesmo de “consciência individual”. Este assunto precisa ser bem compreendido pelos filhos de Deus, para não serem levados pelos assoladores vendavais de falsas doutrinas que soprariam nos últimos dias (Ef 4:14). É com esta preocupação em mente que passamos a analisar criticamente o livro “Eu e o Pai Somos Um”.

Uso de fontes
Fundamental para se entender um livro controvertido como o “Eu e o Pai Somos Um” é a identificação crítica das fontes bibliográficas usadas pelo autor. Essa identificação permite que se tenha uma noção mais precisa e acurada, não apenas do grau de atualização e familiaridade bibliográfica do autor, mas também das obras que ele reconhece como mais autoritativas e abalizadas na área. Deve-se reconhecer, no entanto, que alguns autores adventistas, mesmo crendo em Ellen G. White, evitam mencionar seus escritos ao público não adventista, a fim de minimizar preconceitos. Mas como o livro “Eu e o Pai Somos Um” tem circulado basicamente entre pessoas adventistas e ex-adventistas, cremos que essa precaução não se aplica a ele.

É provável que no processo de pesquisa, Nicotra tenha consultado outras fontes não mencionas explicitamente em seu livro. Mas, além de diferentes versões do texto bíblico, o autor se limita a citar, quase que exclusivamente, obras de referência geral como o Código de Processo Penal12(p. 42); a Encyclopaedia Britannica, 11ª edição13 (p. 49); a Encyclopaedia of Religions, de M. A. Canney14 (p. 49); a New International Encyclopaedia15 (p. 49); a Encyclo-paedia of Religion and Ethics, editada por James Hastings16 (p. 49, 53); os comentários de rodapé da Bíblia de Jerusalém17 (p. 50); a Gramática Elementar da Língua Hebraica, de Hollenberg & Budde18 (p. 62); a enciclopédia Wikipedia da Internet19 (p. 87); e o Catecismo do Católico de Hoje20 (p. 88-89). A única obra adventista mencionada é o livro O Terceiro Milênio e as Profecias do Apocalipse, de Alejandro Bullón21 (p. 50). Nicotra reconhece também como autoridades confiáveis, em suas respectivas áreas, o antigo historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia (p. 52-53)22; um “estudioso inglês” chamado A. Ploughman (p. 53); e o teólogo George Howard, que é dito ter concluído o “seu Ph.D.” no Hebrew Union College (p. 54).
Ao tratar de um tema tão significativo como a natureza de Deus, seria de se esperar que Nicotra citasse pelo menos algumas obras clássicas de Teologia Sistemática23 e outras mais específicas sobre a doutrina de Deus,24 mas todas acabaram sendo desconsideradas. Nem mesmo aparecem quaisquer alusões a obras fundamentais da literatura adventista sobre o assunto como, por exemplo, os capítulos 2-5 do livro Nisto Cremos (disponível em língua portuguesa desde 1989)25; o capítulo “Doctrine of God”, do livro Handbook of Seventh-day Adventist Theology (2000)26; o livro Understanding the Trinity (2001), de Max Hatton27; e o próprio livro A Trindade,28 já mencionado. É digno de nota que Nicotra também não cita uma única vez os escritos de Ellen G. White sobre o assunto.

Diante disso, alguns leitores de “Eu e o Pai Somos Um” poderão indagar: Desconhece o autor a literatura básica sobre a doutrina de Deus, ou seria ele suficientemente tendencioso a ponto de ignorá-la? E mais, estaria ele já tão distante do pensamento adventista contemporâneo que nem mais considera confiável a literatura denominacional, incluindo os escritos de Ellen G. White? É curioso observarmos que, ao mesmo tempo em que Nicotra tenta convencer seus leitores de que os teólogos adventistas não são confiáveis (p. 6, 68, 69), ele cita de forma elogiosa teólogos não-adventistas para justificar suas teorias (p. 54). Com isso, ele tenta distanciar seus leitores do pensamento teológico adventista.

Mas, além de desconhecer inúmeras fontes teológicas abalizadas, o autor de “Eu e o Pai Somos Um” também demonstra sérias inconsistências na forma como usou os próprios documentos históricos dos primeiros séculos da era cristã. Por exemplo, ao focalizar sua atenção tardiamente em Eusébio de Cesaréia como sugerindo que a expressão “batizando-os em nome do Pai e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28:19) não fazia parte do texto original de Mateus, Nicotra acabou ignorando vários outros documentos patrísticos anteriores, que comprovam a autenticidade da expressão. Lamentavelmente, Nicotra não informa seus leitores que a autenticidade dessa expressão de Mateus já havia sido confirmada anteriormente, por exemplo, pelo Didaquê, bem como por Clemente, o Pastor de Hermas, Irineu, Tertuliano de Cartago, Hipólito de Roma, e Orígenes de Alexandria.29 Mas como tais informações não ajudam a construir o argumento de “Eu e o Pai Somos Um”, Nicotra preferiu continuar ignorando-as. 5
Tendenciosa parcialidade no uso de fontes é evidente também na forma como Nicotra escolheu de Eusébio de Cesaréia apenas o que favorece a sua teoria antitrinitariana (ver pp. 52-53), desconhecendo completamente o que a contradiz. Por exemplo, em nenhum momento os leitores de “Eu e o Pai Somos Um” são informados a respeito da existência do Credo de Cesaréia, escrito por Eusébio e por ele apresentado diante do Concílio de Nicéia.30 Nesse credo Eusébio não apenas nomeia explicitamente ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, mas também confirma a autenticidade de Mateus 28:19:
Cremos em um Deus o Pai Onipotente, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um Senhor Jesus Cristo, o Verbo de Deus, Deus de Deus, Luz de Luz, Vida de Vida, e Filho unigênito, o primogênito de toda criação, gerado de Deus o Pai antes de todas as eras, por quem todas as coisas foram feitas; que pela nossa salvação foi feito carne e habitou entre os homens; e sofreu; e ressuscitou no terceiro dia; e ascendeu ao Pai; e virá outra vez em glória, para julgar vivos e mortos.

[Cremos] também em um Espírito Santo.
Cremos que cada um deles é e existe, o Pai verdadeiramente Pai, e o Filho verdadeiramente Filho, e o Espírito Santo verdadeiramente Espírito Santo; como nosso Senhor, ao enviar seus discípulos a pregar, disse: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.31
O mesmo Eusébio, tão laureado por Nicotra, é descrito por Ellen G. White como o “amigo íntimo e adulador de Constantino” que “propôs a alegação de que Cristo transferira o sábado para o domingo”. Esse argumento, “infundado como era, serviu para incentivar os homens a desprezarem o sábado do Senhor”.32 O próprio Eusébio chegou a escrever uma obra sobre a vida de Constantino, na qual afirma que “Deus honrou a Constantino” por ser este “um poderoso luzeiro e o mais eloqüente arauto da genuína piedade”.33 No Concílio de Nicéia (325), Eusébio demonstrou considerável instabilidade teológica entre o arianismo e a ortodoxia.34 A admissão de que “no final de sua vida, após o Concílio de Nicéia”, Eusébio passou a incorporar em seus escritos a própria fórmula trinitariana de Mateus 28:19 (p. 53) confirma a inconsistência desse historiador. Em realidade, de acordo com Benjamin J. Hubbard, “Eusébio tinha o hábito de citar as Escrituras de forma inexata”.35 Mas, a despeito de tudo isso, Nicotra ainda o considera como “de boa reputação no tocante à sua precisão” (p. 52).

A fragilidade documental de “Eu e o Pai Somos Um” transparece também em várias outras ocasiões. Por exemplo, na p. 49 do livro, o autor assevera de forma dogmática: “... Mateus 28:19 tem sua autenticidade questionada. A história demonstra que na era apostólica batizava-se apenas em nome de Jesus, sendo que batismos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo só foram realizados muitos anos após a morte dos apóstolos. Vejamos o que as enciclopédias dizem a respeito...” Sinceramente, enciclopédias são fontes secundárias, úteis para quem deseja começar a estudar determinado assunto, mas jamais deveriam ser usadas em substituição a uma análise acurada das próprias fontes primárias existentes, como o próprio autor sugere nas páginas 51-52 do seu livro. Só que, depois de afirmar que as “citações de versos bíblicos feitas por autores antigos são de grande valor para a crítica literária” (p. 52), Nicotra menciona apenas a Eusébio de Cesaréia, desconhecendo todos os “autores antigos” que o precederam. Será que “de grande valor” para Nicotra são apenas aqueles autores que concordam com as suas idéias?
Na página 53, Nicotra assevera categoricamente que Eusébio de Cesaréia “baseou seus escritos em manuscritos anteriores e mais fidedignos do que os que temos hoje”. Lamentavelmente, Nicotra declara mais uma vez algo que ele mesmo não comprova. Quais seriam esses “manuscritos anteriores e mais fidedignos”? Se a expressão “batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” é espúria e mesmo herética, como sugerido por Nicotra, por que Ellen G. White a citou muitas vezes em seus escritos?36 Será que Eusébio de Cesaréia e o próprio Nicotra seriam mais esclarecidos e confiáveis nesse particular do que a voz profética de Deus para os últimos dias, através dos escritos de Ellen G. White?
Outro problema no uso de fontes ocorre na p. 50, onde aparece uma citação de O Terceiro Milênio e as Profecias do Apocalipse, de Alejandro Bullón. Nicotra transcreve a citação da seguinte forma: “Naquele período, a Igreja cristã passou a ter conflitos internos por causa de doutrinas entranhas que pretendiam misturar-se às verdades bíblicas. Entre as doutrinas em conflito, podemos mencionar: o pecado original, a trindade, a natureza de Cristo, o papel da virgem Maria, o celibato e a autoridade da Igreja” (grifo acrescido por Nicotra). É evidente que Bullón menciona como “doutrinas em conflito” algumas doutrinas biblicamente aceitáveis e outras, espúrias. Mas a maneira como Nicotra grifou o texto acaba induzindo o leitor desatento a crer que o próprio Bullón considera a doutrina da “trindade” como uma das “doutrinas estranhas que pretendiam misturar-se às verdades bíblicas. Que Nicotra creia desta forma, é mais que evidente em “Eu e o Pai Somos Um”; mas sugerir que Bullón esteja qualificando a Trindade como uma doutrina estranha e antibíblica só é possível quando se lê a referida citação de forma tendenciosa.

Existem também outras dificuldades de precisão no uso das fontes. Um exemplo é a alegação de que o Evangelho de Mateus tenha sido escrito em aramaico, sem nem ao menos citar qualquer fonte mais sólida sobre o assunto (p. 42). Na página 53, alusão é feita a Ploughman, sem identificar explicitamente a fonte de onde a informação foi extraída. Na página 54 é mencionado que em 1960 a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira publicou um Novo Testamento grego, mas nenhuma fonte é apresentada que identifique a procedência dessa informação. Já na página 88 aparece uma citação atribuída equivocadamente ao “Credo de Nicéia” (325 d.C.), quando ela é, em realidade, uma versão condensada do posterior Credo Niceno-Constantinopolitano (381 d.C.).37

É lamentável que o livro “Eu e o Pai Somos Um” seja parcial e tendencioso no uso de fontes extra-bíblicas. Mas o assunto se torna bem mais comprometedor ao se descobrir que o mesmo problema de parcialidade transparece também no uso de textos bíblicos. Os adventistas do sétimo dia sempre enfatizaram o princípio protestante da tota Scriptura, que leva em consideração a totalidade das Escrituras. Em contraste, Nicotra se vale de um uso seletivo da Bíblia, em que alguns textos são usados em substituição a outros, fazendo com que importantes passagens bíblicas sejam desconsideradas. Um exemplo típico é a maneira como o referido autor usa os textos que falam no batismo em “nome de Jesus” (At 2:38; 8:16; 10:48; 19:5; Rm 6:3; Gl 3:27) para desfazer a relevância de Mateus 28:19 (pp. 45-49). Como se isso não bastasse, ele não se constrange em desfazer o princípio da sola Scriptura (exclusividade das Escrituras) ao estudar o texto de Mateus 28:19 à luz de Eusébio, Encyclopaedia Britannica, enciclopédia Wikipedia e outras fontes secundárias (p. 49, 52-53, 87). Para Nicotra, é irrelevante o fato de não existir nenhum manuscrito grego (ou mesmo aramaico!) antigo que apresente resquícios de supostas supressões ou variantes textuais em Mateus 28:19.38
Mas a seletividade e a fragilidade bibliográficas de Nicotra podem ser mais facilmente compreendidas ao se considerar as pressuposições básicas que sustentam o conteúdo do livro “Eu e o Pai Somos Um”.
Pressuposições do autor
Existem várias pressuposições básicas que fundamentam o conteúdo do livro “Eu e o Pai Somos Um” de Ricardo Nicotra. Talvez a mais importante, que sumariza a própria
essência do livro, seja que “a Palavra de Deus apresenta duas pessoas que possuem atributos divinos”, e que “a doutrina da trindade carece de embasamento bíblico quando afirma que o Espírito Santo é a terceira pessoa de uma tríade divina” (p. 28). Como todo o conteúdo do livro gravita em torno dessa pressuposição, a doutrina clássica da Trindade ou Tri-unidade é reduzida a uma espécie de “Bindade” ou Duo-unidade. Diante dessa proposta, alguns leitores poderão indagar se Nicotra não estaria sendo motivado mais pelo ditado popular “um é pouco; dois é bom; três é demais”, do que por uma acurada exegese do texto bíblico!
Outra pressuposição básica é que o conceito de “pessoa” só pode ser compreendido dentro dos limites da pessoa humana. Nicotra argumenta que, como o espírito do ser humano não existe separadamente do próprio ser humano, também o Espírito Santo, chamado na Bíblia de “Espírito de Deus” e o “Espírito de Cristo” (Rm 8:9), não pode existir como uma “pessoa” distinta do Pai e do Filho (p. 10-27, 59). Para o mesmo autor, “uma pessoa deve ter corpo e espírito”. Como a Bíblia “não fala que o Espírito Santo tem um corpo” e nem que Ele “tem um espírito” que poderia ser chamado de “o Espírito do Espírito Santo”, conseqüentemente, “o Espírito Santo não é uma pessoa, mas sim o próprio Espírito do Pai e o Espírito de Cristo” (p. 107).
Por mais lógica e persuasiva que possa pretender ser, essa forma de argumentação possui sérias implicações. Primeiro, ela sugere uma compreensão antropocêntrica de Deus, na qual a natureza do ser humano finito se transforma no referencial para se entender a natureza do Ser Divino infinito. Não resta a menor dúvida de que o ser humano foi criado originalmente à imagem e semelhança de Deus (Gn 1:26, 27), mas jamais podemos dizer que Deus é semelhante ao ser humano, pois isso acabaria divinizando o ser humano ou humanizando a Deus.39 Mas, além disso, a argumentação de Nicotra também nega a pluralidade de significados dos termos hebraico ruach40 e grego pneuma41, traduzidos como “espírito” nas Escrituras, dando a impressão que o sentido desses termos é sempre o mesmo, independente de se referirem ao ser humano ou a Deus.

Nicotra afirma também que a doutrina da Trindade está completamente ausente no Antigo Testamento (p. 68), e que, no Novo Testamento, ela recebe apoio apenas aparente de alguns poucos textos bíblicos espúrios e/ou mal interpretados (pp. 48, 75). Esse tipo de alegação é característico daqueles que desconhecem, consciente ou inconscientemente, os textos bíblicos usados nas exposições teológicas sobre o assunto, acima mencionadas.42 A tentativa de apenas rotular tais exposições (p. 68-69) e então ignorá-las completamente é inaceitável em qualquer pesquisa séria de alguém que pretenda ser honesto para com “as inúmeras evidências bíblicas” sobre a “obra e natureza” do Espírito Santo (p. 67).
Além disso, para Nicotra, a crença no Espírito Santo como “uma pessoa divina” não passa de uma mera teoria satânica. Ele não se constrange em afirmar que “o inimigo busca confundir nossa adoração criando mais uma pessoa divina cujo nome é Espírito Santo, quando na verdade o Espírito Santo é um atributo do Pai e do Filho que nós podemos receber, mas não um deus que devamos adorar ou louvar” (p. 95). Com esse tipo de arrazoado Nicotra acaba sugerindo que todas as evidências bíblicas da personalidade do Espírito Santo e as declarações explícitas de Ellen G. White que falam do Espírito Santo como uma “pessoa” (inglês person) e uma “pessoa divina” (inglês divine person), distinta do Pai e do Filho,43 são de origem satânica! A alegação de que o termo person (em inglês) tem um sentido diferente da palavra pessoa (em português) não é convincente para quem conhece bem ambas as línguas. Para os verdadeiros adventistas do sétimo dia continua plenamente válido o seguinte conselho inspirado de Ellen White: “Precisamos reconhecer que o Espírito Santo ... é tanto uma pessoa como o próprio Deus”.44

Nicotra também argumenta que Mateus foi escrito originalmente em aramaico, porque o seu objetivo era “alcançar os judeus convencendo-os de que Jesus Cristo era o Messias descrito pelos profetas do Antigo Testamento” (p. 42), e que o texto original aramaico de Mateus 28:19 não continha a expressão “batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (p. 42-56). A teoria de que Mateus tenha sido escrito originalmente em aramaico (dialeto hebraico) é baseada na alusão que Eusébio de Cesaréia faz à seguinte declaração de Papias: “Mateus escreveu os oráculos [grego logia] em língua hebraica, e cada um os interpretava como podia.”45 Para se aceitar essa teoria, é necessário interpretar o termo logia como uma alusão ao próprio Evangelho de Mateus, e assumir que o “hebraico” mencionado por Eusébio não seja realmente hebraico e sim aramaico. No entanto, é importante ter-se em mente que (1) até hoje não foi encontrado nenhum fragmento hebraico ou aramaico desse evangelho; (2) “o grego de Mateus não apresenta qualquer indício de ter sido traduzido do aramaico”; e (3) “existem abundantes evidências de que o grego de Mateus é dependente de Marcos”.46
Já a teoria de que a expressão “batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” não fazia parte do suposto texto aramaico de Mateus 28:19 não passa de mera teoria especulativa inferida também dos escritos de Eusébio de Cesaréia, sem nenhum manuscrito bíblico, quer em aramaico ou em grego, para a substanciar. É interessante notarmos que mesmo as antitrinitarianas Testemunhas de Jeová preservam o texto em sua Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, onde a referida expressão é vertida da seguinte forma: “batizando-as em o nome do Pai, e do Filho, e do espírito santo”.47 Se a expressão não fosse autêntica, essa tradução certamente a omitiria.
Merece ser salientada ainda a pressuposição de que, segundo Nicotra, a doutrina da Trindade é uma teoria herética imposta ao cristianismo pelo Concílio de Nicéia (325 d.C.). Conseqüentemente, Nicotra relê as Escrituras como se nelas não existissem quaisquer evidências genuínas que suportassem essa doutrina, pois, em sua opinião, ela é parte do processo pós-apostólico de “paganização do cristianismo” (p. 89). Se esse fosse realmente o caso, por que então Ellen G. White não incluiu essa doutrina entre os falsos ensinos pós-apostólicos e medievais mencionados em seus livros Spiritual Gifts, vol. 1 (1858)48; The Spirit of Prophecy, vol. 4 (1884)49; e O Grande Conflito (1888; edição revisada de 1911)50? Por que essa “importante” questão não foi tratada explicitamente em nenhum dos seus demais escritos? Será que Nicotra, em resposta a essas perguntas, preferiria assumir que Ellen G. White tenha suprimido tendenciosamente a verdade sobre o assunto ou, então, que ela haja permitido indevidamente que a liderança da Igreja Adventista do Sétimo Dia “adulterasse” todos esses escritos? Seja qual for a preferência de Nicotra, a única resposta correta a estas indagações é que Ellen G. White não incluiu a doutrina da Trindade entre os falsos ensinos pós-apostólicos e medievais simplesmente porque ela cria nessa doutrina, e jamais a qualificou pejorativamente como Nicotra e seus seguidores o fazem.
As pressuposições anteriores são indispensáveis para se entender a argumentação que Nicotra usa em seu livro “Eu e o Pai Somos Um”. Mas, somadas a elas, existem também alguns recursos retóricos que o autor usa para convencer seus leitores de que as idéias dele são bem mais confiáveis e fidedignas do que as da Igreja Adventista do Sétimo Dia, de cuja denominação ele já foi membro.
Recursos retóricos
Algumas pessoas sem formação teológica buscam espaço e reconhecimento nessa área, questionando de forma generalizada a idoneidade e a credibilidade dos teólogos. Maior
êxito é conseguido quando o questionador assume uma postura irônica para com seus antagonistas, e apela de forma populista para que outras pessoas sem formação teológica (mas “sinceras”!) também rompam com a “tradição” teológica predominante. O argumento se torna quase irresistível quando o questionador não se contenta apenas em demonstrar a coerência bíblica de seus postulados, mas chega mesmo a discursar como um confiável porta-voz de Deus para uma comunidade em pretensa apostasia.
Valendo-se desses recursos apologéticos, Ricardo Nicotra questiona subliminarmente a credibilidade dos “acadêmicos da religião” e dos assim chamados “doutores em divindade”, que é um título honorífico não recebido por nenhum dos atuais teólogos adventistas brasileiros.51 Já no “Prefácio” (p. 6) de sua obra, ele argumenta:
Apelo a todos os crentes sinceros que se desprendam de idéias pré-concebidas e dogmas arraigados a fim de receber da Palavra de Deus um conhecimento progressivo de Deus. ...
O conhecimento progressivo de Deus é possível! Mas para avançarmos, temos que estar dispostos a deixar muitos conceitos já arraigados para trás. Através da leitura deste livro você perceberá que a verdade bíblica é simples e fácil de ser compreendida, não é exclusividade dos acadêmicos da religião e dos doutores em divindade. Até mesmo pessoas simples, sem educação formal, podem conhecer esse maravilhoso Deus que não é um Deus misterioso e complicado, mas um Deus simples que tem prazer em revelar-se aos seus filhos mais humildes.
Na “Introdução” (p. 8), Nicotra ironiza outra vez: “Afinal de contas, há pastores e professores de religião com mestrado e doutorado, experts em divindade. Eles não podem estar errados, podem?” Posteriormente em sua discussão (p. 68 e 69), ele volta a insinuar desdenhosamente: “talvez o argumento mais sofrível utilizado pelos doutores em divindade trinitarianos esteja relacionado com...”, e mesmo ironicamente: “os doutos teólogos pretendem sugerir que...” Alguns leitores poderão indagar: Até que ponto o rompimento de Nicotra com a organização adventista e sua liderança administrativa acabou gerando um efeito dominó, levando-o a questionar também a liderança teológica da denominação? Seja como for, essa é uma questão pessoal, não pertinente ao propósito da presente análise crítica.
É certo que mestrados e doutorados não tornam qualquer ser humano infalível. Mas a forma irônica e pejorativa como essas expressões são usadas por Nicotra acaba rotulando negativamente os teólogos que não aceitam seus pressupostos. Desta forma, o leitor é vacinado subliminarmente contra quaisquer respostas teológicas que questionem os postulados de “Eu e o Pai Somos Um”. Rotu-lações pejorativas, como as que aparecem nesse livro, são normalmente usadas pelos críticos como um complemento retórico para suprir a carência de argumentos academicamente convincentes. É curioso ver também como Nicotra, ao mesmo tempo em que critica genera-lizadamente os teólogos, usa palavras hebraicas (p. 12-15, 62, 68-69, etc.) e gregas (p. 16-27, 70-85, etc.), e reproduz textos bíblicos nessas línguas (p. 22, 23, 38, 55), como se fosse um especialista na área teológica e com mais conhecimentos que os demais teólogos.
Valendo-se de uma espécie de apologia da ignorância e da instabilidade doutrinária, Nicotra procura gerar uma dicotomia artificial entre teólogos (orgulhosamente equivocados) e leigos (humildemente corretos) que predisponha o leitor a aceitar sua “teologia leiga” como mais honesta e confiável do que o pensamento acadêmico da denominação (p. 6, 8-9). Ao mesmo tempo em que o estudo é tido como importante (p. 9), os estudiosos são considerados como irrelevantes; pois, se o indivíduo estudar o bastante para se tornar um teólogo, ele passa a ser desprezível para Nicotra (p. 6, 8). Mas é importante notarmos que mesmo o preconceito deste para com os teólogos não é plenamente consistente, pois, com base na sua conveniência apologética, ele os polariza entre os que prestam (p. 53-54) e os que não prestam (p. 68-69). A dicotomia entre teólogos e leigos tende a desaparecer da mente daqueles que reconhecem que Paulo e os grandes reformadores do século 16 eram teólogos por excelência, com sólidos princípios de interpretação bíblica.
Outro importante recurso retórico usado por Nicotra é a forma como ele define e aplica em seu livro os conceitos de “conhecimento progressivo de Deus” e de “humildade”. Para ele, o “conhecimento progressivo de Deus” só pode ser alcançado por aqueles que estão dispostos “a deixar muitos conceitos já arraigados para trás” (p. 6). Por sua vez, “o humilde é flexível” e “não se apega a conceitos pré-estabelecidos”. À primeira vista, esses conceitos parecem neutros e aceitáveis; mas, depois de observar como Nicotra os usa ao longo do seu livro, percebe-se que eles são fundamentais para o seu discurso antitrinitariano. Com eles, o autor sugere que as pessoas que não rompem com a doutrina da Trindade não são humildes, nem possuem um “conhecimento progressivo de Deus”.
É certo que toda a tradição antibíblica é inaceitável (ver Mt 15:6, 9, 13). Mas igualmente inaceitável é romper com os grandes componentes da “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). A igreja primitiva apegava-se a conceitos preconcebidos chamados de “doutrina dos apóstolos” (At 2:42). Paulo insta com os cristãos a que não aceitem outro “evangelho que vá além do que vos temos pregado” (Gl 1:8, 9; cf. Rm 1:1-6). A própria mensagem de salvação é denominada no livro do Apocalipse de “evangelho eterno” (Ap 14:6). Por outro lado, a teoria de que toda a tradição religiosa é má e deve ser abandonada acaba suscitando uma geração de cristãos sem raízes e descomprometidos. Alguém poderia usar facilmente o argumento de que o humilde, que “não se apega a conceitos pré-estabelecidos”, deve romper também com a tradição adventista da observância do sábado!
Mas, além das pressuposições básicas e dos recursos retóricos, é indispensável que se identifiquem também os princípios de interpretação sugeridos pelo autor. Especial atenção deve ser dada, não apenas à validade dos princípios enunciados, mas também ao grau de coerência demonstrada pelo autor no uso desses princípios em sua interpretação do texto bíblico.

Princípios de interpretação
Nicotra não fornece em “Eu e o Pai Somos Um” uma exposição sistemática dos princípios de interpretação bíblica por ele utilizados, mas prefere mencioná-los esparsamente, enunciando alguns deles onde julga mais oportuno. Vários princípios mencionados são válidos e oportunos. Mas deve-se levar em consideração o fato de que a mera enunciação de princípios corretos de interpretação não garante que estes tenham sido aplicados corretamente no próprio processo de interpretação bíblica. Falando a respeito dos princípios advogados por Agostinho, Bernard Ramm declara que “dificilmente existe uma regra por ele estabelecida que ele mesmo não violasse freqüentemente.”52 Cremos que o mesmo problema interpretativo também ocorre em “Eu e o Pai Somos Um”.
Uma das mais significativas declarações hermenêuticas do livro aparece na página 41, onde Nicotra afirma que “o melhor conselho para evitar erros doutrinários” é: (1) “analisar o texto controvertido dentro do seu contexto”; (2) “analisar outros textos bíblicos que abordam o mesmo assunto”; e (3) “quando possível, recorrer ao original hebraico ou grego para desfazer dúvidas remanescentes”. Esses princípios gerais são pertinentes e devem ser usados no estudo das Escrituras, mas Nicotra não os aplica consistentemente em sua própria interpretação do texto bíblico.
A análise adequada do contexto é fundamental para se compreender um texto, e Nicotra chega mesmo a afirmar que “analisar o verso dentro do contexto é a chave para chegarmos” a uma “conclusão” correta (p. 73). Mas as análises contextuais realizadas por Nicotra nem sempre são tão confiáveis como aparentam ser. Por exemplo, nas páginas 83-85 de “Eu e o Pai Somos Um”, ele se propõe a elucidar contextualmente o significado de João 16:14, onde aparecem as seguintes palavras de Cristo: “Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar”. O pronome “Ele” (grego ekeînos) refere-se nesse verso ao “Espírito da verdade” mencionado no verso anterior (v. 13), que é o seu antecedente natural. Só que Nicotra, para confirmar sua teoria antitrinitariana, não se constrange em desconhecer esse antecedente natural, impondo ao referido pronome um antecedente artificial que vem depois do próprio pronome, ou seja, o “Pai” do verso seguinte (v. 15). O referido autor chega mesmo a dizer que “é incontestável que o verso 14 refere-se ao Pai, pois este é quem glorifica o Filho”. Mas o fato de o Filho glorificar o Pai (Jo 17:4) e o Pai glorificar o Filho (Jo 8:54; 17:1, 5) não exclui a possibilidade de o Espírito Santo também glorificar o Filho, como confirmado em João 16:14, onde o próprio Cristo se refere ao Espírito Santo nos seguintes termos: “Ele me glorificará.” A interpretação de Nicotra contradiz diretamente a seguinte declaração de Ellen G. White: “O Salvador veio glorificar o Pai pela demonstração de Seu amor; assim o Espírito havia de glorificar a Cristo, revelando ao mundo a Sua graça.”53
A idéia de “analisar outros textos bíblicos que abordam o mesmo assunto” (p. 41) também é indispensável, só que Nicotra, ao tentar implementar esse princípio, acaba incorrendo em graves problemas interpretativos. Para resolver as tensões entre textos aparentemente contraditórios, Nicotra se vale freqüentemente da abordagem dicotômica do either/or (ou isso, ou aquilo), que o leva a enfatizar o conteúdo dos textos que mais lhe são úteis em sua interpretação, e a desconhecer aqueles que não se enquadram em seu sistema interpretativo. Por exemplo, entre os textos do Novo Testamento que descrevem pessoas sendo batizadas em nome de Jesus (At 2:38; 8:16; 10:48; 19:5; Rm 6:3; Gl 3:27), por um lado, e o texto que ordena o batismo “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28:19), por outro, Nicotra fica com os primeiros e simplesmente nega a autenticidade do último (p. 45-55). Ele tenta justificar sua postura dicotômica com a imagem de uma “Balança das Evidências” (p. 48), sugerindo que a maior quantidade de textos é determinante para a interpretação. Como num dos pratos da balança aparece “apenas um verso ‘em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo’”, e no outro aparecem “36 versos ‘em nome de Jesus’’, a conclusão de Nicotra é que o batismo “em nome de Jesus” é a única fórmula batismal aceitável para os cristãos. A ênfase quantitativa desse autor transparece também na expressão “o mais importante é destacar a quantidade de referências...” (p. 100).
Esse método de interpretação, por mais lógico que possa parecer para quem gosta de matemática e estatística, é inaceitável para aqueles que buscam uma harmonia geral nas Escrituras, em vez de simplesmente selecionar delas as porções que mais lhes convêm. Se aplicássemos o mesmo método a outros assuntos bíblicos, acabaríamos mutilando inevitavelmente o equilíbrio temático das Escrituras. Talvez considerássemos como muito importante o assunto da idolatria, porque os profetas do Antigo Testamento falaram muito sobre ele, e menosprezaríamos a profecia das “duas mil e trezentas tardes e manhãs”, por ser mencionada apenas em Daniel 8:14. Também a cerimônia do lava-pés (Jo 13:1-20) e as três mensagens angélicas (Ap 14:6-12), por serem mencionadas apenas uma única vez na Bíblia, se tornariam irrelevantes para nós.

Outro sério problema da interpretação de Nicotra é que a experiência pessoal ou coletiva da igreja apostólica acaba se tornando mais normativa do que as próprias ordenanças de Cristo. Se meia dúzia de textos afirma que pessoas foram batizadas em nome de Jesus (At 2:38; 8:16; 10:48; 19:5; Rm 6:3; Gl 3:27), então a ordenança do batismo “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28:19) pode ser considerada espúria. Se “toda a doutrina deve ser obtida da pura Palavra de Deus, não de escritos de homens, por mais fidedignos que eles sejam” (p. 53), por que Nicotra prefere usar Eusébio de Cesaréia (p. 52-54) em vez do testemunho unânime da crítica textual (p. 50-51) em favor da autenticidade de Mateus 28:19?
Já o conselho de que devemos, “quando possível, recorrer ao original hebraico ou grego para desfazer dúvidas remanescentes” (p. 41) é oportuno para aqueles que conhecem bem essas línguas e são honestos no uso delas. Em muitos casos, porém, o apelo às línguas originais, por pessoas sem um conhecimento abalizado delas, não passa de uma forma sofisticada de revestir teorias pessoais com uma pretensa roupagem acadêmica. Como a maioria dos leitores não conhece as línguas originais, eles são induzidos a crer no discurso “mais acadêmico” daquele que se vale desse recurso. Devemos ressaltar, no entanto, que não é nossa intenção questionar aqui o interesse de Nicotra pelas línguas nas quais a Bíblia foi originalmente escrita. Mas o uso que ele faz delas deixa muito a desejar.
Um exemplo claro dessa deficiência é a forma reducionista e parcial como Nicotra entende o termo hebraico ruach (“espírito”) (p. 12-16). Mas essa questão é tratada à frente mais detalhadamente. Outro exemplo é a forma como esse autor interpreta o substantivo grego parákletos (Confortador) (p. 70-85). Cristo prometeu que rogaria ao Pai para que Este enviasse “outro Consolador”, distinto de Ambos (Jo 14:16, 26). Crendo que esse “outro Consolador” deve ser o próprio Cristo, Nicotra mais uma vez argumenta que não se pode defender uma doutrina baseada “em um verso” ou “uma única palavra” (p. 75). Conseqüentemente, os textos de João 14:16 e 26 perdem seus significados naturais, e acabam tendo que assumir o sentido artificial que Nicotra lhes atribui. Como em 1 João 2:1 o mesmo termo parákletos é usado para Cristo como “Advogado”, todas as referências ao mesmo termo grego encontradas no Evangelho de João são tidas como se referindo, não ao Espírito Santo, mas ao próprio Cristo. Esse tipo de raciocínio acaba negando a assim chamada “fluidez dos símbolos”, ou polissemia, onde um mesmo símbolo (ou nome) pode significar diferentes entidades em diferentes contextos. Um exemplo disso é o termo “leão”, que simboliza na Bíblia o próprio animal (Jz 14:5-9; Dn 6:7-27), o Império Babilônico (Dn 7:4; cf. 2:37, 38), Satanás (1Pe 5:8) e Cristo (Ap 5:5). Se usássemos a interpretação generalizadora de Nicotra, teríamos sérias dificuldades em entender a riqueza de significados de muitos termos bíblicos.

Nicotra também se vale das línguas originais para neutralizar o argumento de que o nome “Espírito Santo” é um nome próprio, grafado nas Escrituras com iniciais maiúsculas. Ele argumenta nas páginas 21-22 do seu livro que
os manuscritos mais antigo do Novo Testamento são alguns fragmentos de papiro escritos em uncial. O padrão uncial utilizava-se de letras maiúsculas apenas. Este padrão continuou sendo utilizado nos pergaminhos até o século XI, quando a escrita minúscula começou a ser adotada. Fica claro que escrever “Espírito Santo” com iniciais maiúsculas é uma convenção adotada posteriormente.
À primeira vista, Nicotra parece invalidar quaisquer discussões sobre maiúsculas e minúsculas em relação ao texto bíblico. Só que, logo depois de afirmar que os manuscritos mais antigos eram escritos com todas as letras maiúsculas, Nicotra reproduz uma versão mais recente do texto grego de Atos 13:9 para demonstrar que o nome Paulo (grego Paûlos) aparece grafado com o “P” maiúsculo, mas o nome “espírito” (grego pneûma) aparece com “p” minúsculo (p. 22). Com base em uma versão grega de 1 Coríntios 2:11 onde o “espírito” do homem e o “espírito” de Deus são grafados igualmente em minúsculas, Nicotra conclui que “não há porque interpretar que o espírito de Deus é uma outra pessoa e o espírito do homem não é uma outra pessoa” (p. 23-24). Ora, se os manuscritos mais antigos eram escritos com todas as letras maiúsculas, que sentido teria esse argumento de maiúsculas e minúsculas? Por que Nicotra ainda insiste em mostrar que nos manuscritos gregos posteriores a palavra “espírito” aparece em Atos 13:9 e 1 Coríntios 2:11 com inicial minúscula? Não é de surpreender que Nicotra mais uma vez usa determinado argumento, quando lhe é conveniente, e o rejeita, quando não favorece suas teorias pessoais.
Outro princípio básico usado por Nicotra é de que não se pode basear uma doutrina em um só texto bíblico. Só que ele usa esse princípio para minimizar, como já mencionado, a força de alguns textos claros das Escrituras. Na tentativa a desfazer a declaração trinitariana de Mateus 28:19, ele argumenta na página 48 de seu livro que “não podemos estabelecer uma conclusão definitiva com relação a uma doutrina ou prática basendo-se apenas em um verso da Bíblia”. Já na páginas 54 ele volta a insistir que a autenticidade de Mateus 28:19 “é bastante questionável e, portanto, não deve ser utilizado para provar qualquer doutrina. Ademais, é sempre conveniente lembrar que nenhuma doutrina bíblica pode ser estabelecida com base em apenas um verso”.
Em relação à expressão “outro Consolador” (Jo 14:16), Nicotra (p. 75) usa novamente o mesmo argumento:
Defender uma doutrina baseado em um verso é algo muito perigoso, principalmente se o contexto não for analisado apropriadamente e se outras passagens sobre o assunto não forem consultadas. Mas o mais perigoso é basear um argumento sobre uma única palavra. E o risco de cometer um erro aumenta quando esta palavra está inserida entre elementos simbólicos, como é o caso do verso 16 [de João 14].
Quem insiste em tomar a sério o conteúdo de qualquer desses textos (Mt 28:19 e Jo 14:16) acaba sendo rotulado por Nicotra como alguém que se aproveita “de alguns pontos isolados para impor seus ensinos” e alguém que ignora a “regra geral”, apegando-se “fortemente nas exceções” (p. 40). Como já mencionado, é certo que toda uma doutrina não pode ser construída baseada apenas em um verso bíblico; mas, por outro lado, é igualmente perigoso construir uma doutrina desconsiderando-se textos bíblicos. Os adventistas do sétimo dia seguem o princípio da tota Scriptura, ou seja, da analogia das Escrituras. Em contraste, para Nicotra, textos bíblicos podem ser rejeitados, ou pelo menos reinterpretados, toda vez que discordarem dos postulados antitrinitarianos por ele advogados. Com esse critério, a razão humana acaba se sobrepondo inegavelmente à revelação divina.
As considerações anteriores são suficientes para se ter uma idéia geral das inconsistências hermenêuticas encontradas no livro “Eu e o Pai Somos Um”. Vários assuntos diferentes acabaram sendo mencionados tangencialmente ao longo da discussão. Mas cremos ser conveniente abordar um pouco mais detidamente alguns assuntos tratados no livro.

Interpretações pessoais
O livro “Eu e o Pai Somos Um” apresenta uma releitura antitrinitariana de vários temas bíblicos. A natureza mais sintética do presente texto não permite que analisemos todos eles. Mesmo assim, consideraremos criticamente ainda algumas idéias adicionais relacionadas com a preservação das Escrituras, o conceito bíblico de mistério, a teoria da Bindade, o Filho gerado, a emanação do Espírito divino, o parákletos divino, o trono do Espírito Santo e a autenticidade de Mateus 28:19.

A PRESERVAÇÃO DAS ESCRITURAS
Se alguém que ainda não leu o livro “Eu e o Pai Somos Um” o abrisse casualmente na página 41, com certeza se impressionaria com a atitude respeitosa de Nicotra para com as Escrituras, expressa na seguinte declaração: “Acreditamos plenamente que Deus preservou sua Palavra ao longo dos séculos e que não houve perda de sua essência”. Já na página 38 somos assegurados de que “podemos confiar na Palavra de Deus pois ela mantém a verdade original sem perda de essência” (p. 38). Mas um estudo mais atento do conteúdo do livro revela que Nicotra possui sérias ressalvas ao conceito da preservação do conteúdo das Escrituras ao longo dos séculos. Enquanto que os cristãos em geral admitem que Deus permitiu apenas algumas interpolações não heréticas ao texto bíblico, Nicotra fala enfaticamente a respeito de “adulterações” heréticas do próprio texto bíblico em suas línguas originais. Segundo ele, “textos bíblicos foram adulterados em favor da teoria trinitariana” e “alterações foram feitas para ‘beneficiar’ algumas doutrinas pagãs” (p. 38).
Nicotra menciona que nos manuscritos gregos antigos não aparece a interpolação trinitariana de 1 João 5:7-8, que na versão Almeida Revista e Corrigida foi vertida como “no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são um. E três são os que testificam na terra”. Esse detalhe pode surpreender àqueles que nunca estudaram o texto, mas é mais do que óbvio para os que conhecem a literatura adventista sobre o assunto. Por exemplo, já em 1949 Walter Schubert esclareceu na revista O Pregador Adventista (precursora de O Ministério Adventista e atual Ministério) que nenhum manuscrito grego anterior ao século 16 trazia essa expressão, e que ela não passava de mera anotação marginal de Cipriano, bispo de Cartago, que Prisciliano acabou acrescentando à Vulgata Latina.54 Em 1957 o Seventh-day Adventist Bible Commentary confirmou que “evidências textuais atestam a omissão da passagem”.55 Em 1986, Pedro Apolinário acrescentou que “a Crítica Textual, através de notáveis comentaristas e insignes exegetas têm provado que [essas palavras] não são de autoria do apóstolo João”.56 É interessante notarmos que uma pesquisa no CD-ROM The Complete Published Ellen G. White Writings (versão 3.0) não revela qualquer referência de Ellen G. White ao texto de 1 João 5:7-8.57 Mas, em contraste, no mesmo CD-ROM aparece cerca de 168 vezes a expressão de Mateus 28:19 “batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”.58 Portanto, Mateus 28:19 não pode ser considerado uma interpolação semelhante à de 1 João 5:7-8.
Como adventistas do sétimo dia, não podemos aceitar a teoria de Nicotra a respeito de supostas adulterações heréticas do texto bíblico em suas línguas originais. Essa teoria representa um sério desrespeito para com as Escrituras Sagradas, e acaba minando a confiabilidade da Palavra de Deus. Somos advertidos por Ellen G. White: “Se não quisermos construir nossas esperanças celestiais sobre um falso fundamento, precisamos aceitar a Bíblia como se lê e crer que o Senhor quer dizer o que diz”.59

O conceito bíblico de mistério
A compreensão cristã da Trindade como um “mistério” é vista por Nicotra como mera invenção de teólogos que não conseguem explicar a Trindade. Na página 5 do seu livro ele diz: Na interpretação dos trinitarianos (assim chamados quem crê na teoria da Santíssima Trindade) este ensino é um mistério! Por que um mistério?
Como tais ensinos carecem de uma base mais sólida e contêm contradições internas de difícil conciliação, seus defensores também ensinam que há um grande mistério por trás destes fatos e que ao ser humano não é dado compreender os mistérios de Deus. “A Santíssima Trindade é um Mistério para ser aceito, não para ser compreendido”, foi a voz de muitos sacerdotes ao longo da Idade Média e que continua ressoando no século 21.
Diante de tais interpretações questionáveis, muitos crentes sinceros acabam aceitando a “doutrina do mistério” e acreditam que sua salvação não depende do pleno conhecimento de Deus, já que o mesmo é um mistério não revelado.
Na página 7 do livro, Nicotra reconhece que, “em nossa limitação, jamais seremos capazes de compreendê-lo completamente, pois Ele é infinito”. Mas já na página 8, o mesmo autor volta a argumentar a respeito da “atuação e essência” do Espírito Santo:
Lamentavelmente quando se fala sobre o Espírito Santo, sua atuação e essência, muitos preferem fechar os ouvidos por considerarem um assunto oculto, um mistério que o homem não deve se atrever a sondar, um tema onde “o silêncio é ouro”. Infelizmente tais pessoas demonstram que não conhecem o Deus de amor, um Deus infinito que se revela ao mais simples e humilde pecador. Nosso Pai é um Deus de revelação, não de mistério. Tais crentes nominais não buscam o conhecimento por si mesmos, mas se acomodam e preferem aceitar os dogmas impostos pela liderança espiritual.
Nessas declarações, Nicotra enfatiza a mesma dicotomia acima mencionada, entre leigos humildes que conseguem explicar a natureza de Deus e teólogos heréticos que escondem sua ignorância acerca de Deus atrás da “doutrina do mistério”. Sob o intertítulo “O Espírito: Mistério ou Revelação” (p. 7-9) ele sugere que algo já revelado não pode ser considerado mais mistério. Nesse ponto, Nicotra acaba desconhecendo a diferença bíblica entre “mistério”, que é uma verdade revelada, mas não conceituada (1Co 2:9-11), e as “coisas ocultas”, que se referem ao que Deus não revelou (Dt 29:29). Além disso, o mistério mencionado em Efésios não diz respeito à encarnação de Cristo, e sim à co-participação dos gentios com os judeus no plano da salvação (Ef 3:1-13; ver também Cl 1:26, 27).
Não sabemos se Nicotra ainda crê na inspiração dos escritos de Ellen G. White; mas, se este é o caso, então ele deveria tomar mais a sério a seguinte declaração encontrada no livro Atos dos Apóstolos:
A natureza do Espírito Santo é um mistério. Os homens não a podem explicar, porque o Senhor não lho revelou. Com fantasiosos pontos de vista, podem-se reunir passagens da Escritura e dar-lhes um significado humano; mas a aceitação desses pontos de vista não fortalecerá a igreja. Com relação a tais mistérios – demasiado profundos para o entendimento humano – o silêncio é ouro.60
A despeito disso, Nicotra não se constrange em afirmar que somente aqueles “que não conhecem o Deus de amor” é que dizem que “o silêncio é ouro” sobre a natureza do Espírito Santo (p. 8). Fica evidente em mais esse ponto que Nicotra já se distanciou significativamente, não apenas do pensamento teológico adventista contemporâneo, mas também dos próprios escritos de Ellen G. White.

Teoria da “Bindade”
Nicotra usa de ironia para desfazer o conceito da Trindade, por ele chamada de “tríade divina” (p. 28) e de conjunto pagão “de três deuses” (p. 93). Já no Prefácio do livro (p. 5) encontramos a seguinte declaração:
Há ainda quem defenda que há um só Deus composto por três pessoas divinas, co-iguais, co-eternas, co-substanciais, a Santíssima Trindade. Esta última forma de crença, a mais comum, é adotada pela Igreja Católica e pela maioria das igrejas protestantes. Para eles, Deus não é um ser pessoal, ou seja, Deus não é uma pessoa, mas três pessoas. Não são três deuses, nem uma só pessoa, mas um Deus Composto, um Deus-Tríplice, ou Deus-Triúno. Complicado? Sim...
Um dos aspectos mais curiosos da teoria antitrinitariana de Nicotra é que três Pessoas na Divindade é “complicado” e inaceitável para ele, mas um só espírito para duas Pessoas (p. 20) é plenamente aceitável. É certo que a teoria da “Bindade” (duas pessoas divinas em vez de três), como sugerida em “Eu e o Pai Somos Um”, pelo menos não superenfatiza os textos monoteístas da Bíblia (Êx 20:3; Dt 6:4; etc.) em detrimento dos que falam de uma pluralidade na divindade (Gn 1:26, 27; etc.). No entanto, essa teoria revela sérias dificuldades em sua tentativa de acomodar o Espírito Santo dentro do conceito de apenas duas Pessoas divinas.
Os cristãos em geral crêem na existência de uma unidade essencial entre os membros da Divindade, ou seja, que Pai, Filho e Espírito Santo são um em natureza e propósito. Mas Nicotra sugere uma unidade pneumática pela qual “o Pai e seu Filho Jesus compartilham o mesmo pneuma, qual seja, o Espírito Santo” (p. 24), e “por essa razão são um” (p. 26). Assumindo que o Espírito Santo não passa de um “atributo intrínseco” do Ser divino (p. 30), Nicotra não teme afirmar que “não há diferença entre Espírito de Deus, Espírito de Cristo e Espírito Santo” (p. 24). Ele chega mesmo a propor a fórmula: “Espírito de Cristo = Espírito de Deus = Espírito Santo” (p. 27).
Agora, se o Espírito Santo é um mero “atributo intrínseco” do próprio Deus, que “não pode ser separado dEle” (p. 24), como poderia esse Espírito ser enviado pelo Pai em nome de Cristo (Jo 14:26; cf. 14:16; Is 48:16) sem ser distinto de ambos? Se o Espírito Santo é o mesmo Espírito de Cristo, como explicar o texto que diz que Maria “achou-se grávida pelo Espírito Santo” (Mt 1:18, 20)? Quando a Bíblia afirma que Jesus era “cheio do Espírito Santo” (Lc 4:1), estaria ela dizendo que Jesus Se encontrava cheio de Si mesmo? E quando Jesus foi levado “pelo mesmo Espírito” ao deserto para ser tentado pelo diabo (Lc 4:1; cf. Mt 4:1; Mc 1:12, 13), teria o próprio Jesus Se autoconduzido ao deserto para se expor às tentações?61 Se nesses casos o Espírito não era o Espírito de Cristo, e sim o Espírito de Deus, então teríamos que admitir que ambos os Espíritos são distintos um do outro, o que conspira contra a teoria de que “não há diferença entre Espírito de Deus, Espírito de Cristo e Espírito Santo” (p. 24).
Para manter sua teoria da Bindade divina, Nicotra se vale de alguns textos que mencionam apenas o Pai e o Filho para sugerir, de forma generalizante, que, se tais textos não mencionam o Espírito Santo, então Este não existe como Pessoa. Por exemplo, esse autor crê que, se a Trindade existisse, então Jesus teria dito “Eu, o Pai e o Espírito Santo somos um” (p. 29), e não apenas “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30). As saudações das cartas de Paulo que mencionam apenas o Pai e o Filho são usadas para comprovar que o Espírito Santo não existe como Pessoa distinta (p. 30-32). Por que Nicotra não menciona também as bênçãos finais dessas mesmas cartas? Será que essas não lhe interessam porque entre elas se encontra 2 Coríntios 13:13 onde é dito: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”?
Nicotra tenta resolver alguns problemas interpretativos com a sua teoria da Bindade, mas ela acaba gerando problemas ainda mais graves, com os quais não se deparam aqueles que crêem, como Ellen G. White, que o Espírito Santo “é tanto uma pessoa como o próprio Deus”.62

Filho gerado
O livro “Eu e o Pai Somos Um” apresenta também uma compreensão ariana de Cristo, ou seja, que “Jesus foi gerado por Deus”. Essa geração é apresentada, não como se referindo à encarnação de Cristo (Mt 1:18:25; Lc 1:26-38; 2:1-7; Jo 1:14; Gl 4:4), e sim, como uma pretensa origem de Cristo antes que todas as coisas viessem à existência. Qualquer indagação quanto ao tempo em que ela teria ocorrido é descartada por Nicotra com a seguinte afirmação: “A questão do tempo da geração de Cristo é tão absurdo quanto uma possível questão do local da geração de Cristo, sendo ele gerado com o atributo da onipresença” (p. 105). Em resposta à pergunta: “Houve um tempo em que Cristo não tenha existido?”, Nicotra alega simplesmente que essa questão “não faz qualquer sentido”, pois “Cristo é o ‘Pai da Eternidade’ [Is 9:6], é o Criador do Tempo” (p. 105). Mas esse argumento não resolve a questão, pois permanece a teoria de que, antes que o tempo fosse criado, Cristo foi gerado pelo Pai.
Não há como negar o fato de que a cristologia de Nicotra está fundamentada na noção ariana de um “semi-Deus” gerado pelo Pai. Para não inferiorizar a Cristo, Nicotra teria que admitir que Cristo é plenamente coeterno com o Pai, sem jamais ter sido gerado por Ele. Mas Nicotra prefere resolver a questão valendo-se de uma analogia artificial entre a origem de Eva e a origem de Cristo. O autor argumenta que, como “Eva foi gerada de Adão” e “tem a mesma natureza humana de Adão”, “Jesus Cristo, por ter sido gerado de Deus, é tão divino quanto o Pai” (p. 104). Neste ponto, Nicotra se esquece que Eva não foi gerada de Adão. Ela veio à existência por um ato criador direto de Deus, transformando uma costela de Adão em uma mulher (Gn 2:21, 22). À primeira vista, essa analogia parece confirmar que Cristo, mesmo gerado, pode ter os mesmos atributos do Pai; mas ela não resolve a questão da eternidade de Cristo. Enquanto o Pai sempre existiu, o Filho acaba sendo visto como havendo tido um início, mesmo que esse início tenha sido antes do tempo e da eternidade.
Endosso para a teoria de que Cristo tenha sido gerado por Deus antes que o tempo viesse à existência é buscado em Hebreus 5:5 e 1 João 4:9. Em Hebreus 5:5 aparece a expressão do Salmo 2:7: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”. O verbo “gerar” é usado nesses textos, não no sentido de uma pretensa origem do Filho antes da eternidade, como pretendem alguns, e sim, de entronização como Rei sobre as nações (Sl 2:6-9) e de inauguração como sacerdote “segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 5:5, 6). Que o prometido Messias exerceria simultaneamente os ofícios real e sacerdotal é evidente em Zacarias 6:13: “Ele mesmo edificará o templo do Senhor e será revestido de glória; assentar-se-á no seu trono, e dominará, e será sacerdote no seu trono; e reinará perfeita união entre ambos os ofícios.” Nicotra poderia ter evitado distorcer o sentido do verbo “gerar” se tão somente houvesse dado mais atenção ao contexto bíblico no qual o verbo é usado nos textos acima mencionados.
Por sua vez, na versão Almeida Revista e Atualizada de 1 João 4:9 é dito que Deus enviou “o seu Filho unigênito ao mundo”. O adjetivo grego monogenés (aqui traduzido como “unigênito”) é usado em relação a Cristo também em João 1:14, 18; 3:16, 18. Nicotra parece desconhecer o fato de que monogenés é um termo composto de mónos (único) e gínomai (espécie), e não de gennáo (gerar). Isso é confirmado pelo fato do sufixo genés ser grafado apenas com um “n” em vez de dois.63 Por conseguinte, o termo mono-genés não significa necessariamente o único gerado, mas também o “único da espécie”, alguém que é “singular”. É nesse sentido que Hebreus 11:17 chama a Isaque de “unigênito”, como filho “singular” da promessa, sendo ele o segundo filho de Abraão (ver Gn 16:1-16; 21:1-7). A Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) traduz corretamente 1 João 4:9 como “Deus enviou seu Filho único ao mundo”.
Em Isaías 9:6 Cristo é chamado de “Deus Forte, Pai da Eternidade”. Mesmo que Nicotra coloque a pretensa geração de Cristo antes do tempo e da eternidade, ela continua em direto antagonismo com a declaração de Ellen White de que “em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada”.64

A emanação do Espírito divino
Um dos componentes básicos da teoria antitrinitariana de Nicotra é a noção de que o Espírito Santo não é um Ser pessoal, mas apenas “um abributo que não pode ser separado” de Deus (p. 24), e que deve ser entendido como a “mente” de Deus (p. 15-16). Só que essa teoria acaba conflitando com o ensino bíblico que fala a respeito da “mente do Espírito” (Rm 8:27). Se o Espírito Santo fosse apenas a “mente” de Deus, como poderia o próprio Espírito Santo ter “mente”? Teríamos então que acreditar na existência de uma mente da mente? Se confrontado com o texto de Romanos 8:26 e 27, talvez Nicotra preferisse desconversar o assunto alegando simplesmente, como em outras ocasiões, que não podemos construir uma doutrina baseada em um único texto bíblico (p. 48-49, 54, 75). Seja como for, os leitores que procuram viver “de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4:4; cf. Ap 22:18, 19) certamente apreciariam encontrar em “Eu e o Pai Somos Um” uma explicação convincente do que significa a “mente do Espírito”.
Equacionando o Espírito de Deus com o espírito dos seres humanos, Nicotra não se constrange em afirmar: “Tanto o Espírito de Deus quanto o espírito do homem são escritos absolutamente da mesma forma em grego. Portanto não há porque interpretar que o espírito de Deus é uma outra pessoa e o espírito do homem não é uma outra pessoa” (p. 24). Nesta afirmação, Nicotra não apenas desconhece que um mesmo termo pode ter vários sentidos diferentes na Bíblia, mas também se vale de um “silogismo grego” semelhante ao que ele mesmo condena nas páginas 100-101 do seu livro. O silogismo seria o seguinte: Premissa A: O homem tem um espírito que não possui existência própria fora do corpo. Premissa B: Deus tem um espírito. Conclusão: Logo, o Espírito de Deus também não possui existência própria fora do corpo de Deus.
Mesmo reconhecendo que “a Bíblia emprega diversas figuras de linguagem” em relação ao Espírito Santo (p. 58), Nicotra não reluta em interpretar de forma literal algumas delas em sua tentativa de invalidar a personalidade do Espírito Santo. O autor indaga de forma irônica: “Uma pessoa pode ser derramada sobre outras [Is 44:3; Ez 39:29; Jl 2:28, 29]? Logicamente não!” e mais: “Uma pessoa pode ser soprada sobre outras [Jo 20:22]? É claro que não!” (p. 61). Mas, por que Nicotra prefere interpretar literalmente apenas os verbos “derramar” e “soprar”, e não também o verbo “revestir”? Em Romanos 13:14, o apóstolo Paulo ordena aos cristãos: “revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”. Se usássemos a mesma forma de argumentação de Nicotra, teríamos que admitir que também Cristo não pode ser uma pessoa, mas apenas uma roupa, pois nenhuma pessoa pode ser revestida em outra! E ainda, como Nicotra explicaria o texto de Isaías 53:12, onde é dito que o próprio Cristo 19
“derramou a sua alma na morte”? Além disso, devemos lembrar que pessoas cheias do Espírito Santo (Êx 31:2; 35:31; Mq 3:8; Lc 1:15, 67; 4:1; At 2:4; 4:8, 31; 6:3, 5; 7:55; 9:17; 11:24; 13:9) são pessoas que estão sob a influência do Espírito Santo.
É curioso observarmos também como textos bíblicos que falam da morte de Cristo (Lc 23:46) e de outros seres humanos (Ec 12:7) são usados, em uma falsa analogia, para provar que o Espírito Santo não tem existência própria fora do corpo de Deus. Nicotra chega mesmo a afirmar que “um espírito (pneuma) sem corpo, com autonomia, existência e personalidade própria (independente do possuidor) é um conceito defendido pelo Espiritismo e pelo Trinitarianismo” (p. 24). Com esse tipo de argumento Nicotra consegue rotular sutilmente os trinitarianos, que crêem na personalidade do Espírito Santo, como pessoas que advogam idéias espíritas. Se o leitor não tiver um embasamento doutrinário mais sólido, ele acabará convencido por esse recurso retórico destituído de fundamentação bíblica.
Na tentativa de negar a personalidade do Espírito Santo, Nicotra chega mesmo a sugerir que o conceito de que “o corpo sem espírito é morto” (Tg 2:26) se aplica tanto a seres humanos quanto ao próprio Deus (p. 19-20). Esse tipo de analogia é demasiadamente frágil e artificial. Como Nicotra explicaria o fato de que, quando o espírito sai das pessoas, elas morrem (Sl 146:4), e que, quando o Espírito Santo sai de Deus (Jo 15:26), Este não morre? E mais, por que o Espírito Santo é passível de ser enviado por Deus (Is 48:16; Jo 14:16, 26), e os seres humanos não conseguem enviar o seu próprio espírito? Não seria o caso de que, embora o Espírito de Deus e o espírito do homem sejam “escritos absolutamente da mesma forma em grego” (p. 24), eles são de natureza diferente e, portanto, devem ser interpretados de forma distinta?
Em vez de reconhecer essa distinção (p. 24), Nicotra prefere crer que o ato de Deus enviar o Espírito Santo não passa de mera emanação espiritual. Na página 79 de “Eu e o Pai Somos Um” Nicotra interpreta a expressão “que procede do Pai” (Jo 15:26) nos seguintes termos: “O Espírito de Deus está dentro de Deus e não fora dEle, assim como o espírito do homem está dentro do corpo do homem. De dentro de Deus o Espírito emana para os seus filhos”. Diante dessa afirmação, não há como evitar a pergunta: Se a analogia entre o espírito do homem e o Espírito de Deus (p. 10-27) é válida, por que o Espírito de Deus emana, e o do homem, não?
Por mais sincero e honesto que Ricardo Nicotra pretenda ter sido em seu estudo (p. 6), cremos que a sua teoria da emanação divina reflete bem mais de perto a filosofia de Plotino (205-270) e de Schelling (1775-1854) do que o conceito bíblico. Esses filósofos consideravam a “emanação” como um “processo no qual a divindade suprema irradia, emite ou propaga sua própria substância, criando o universo, uma extensão de sua natureza divina, de maneira processual, contínua e permanente”.65 Nicotra certamente não iria tão longe como esses filósofos na definição de referido termo, mas as implicações lógicas da teoria dele não diferem muito desse conceito filosófico, pois a suposta emanação teria que realizar a ampla obra atribuída nas Escrituras ao Espírito Santo. Por contraste, os adventistas do sétimo dia crêem que o Espírito Santo possui uma personalidade distinta do Pai e do Filho, diferindo radicalmente da mera emanação divina proposta por Nicotra.

O parákletos divino
Boa parte dos argumentos que Nicotra usa para reinterpretar o parákletos divino no Evangelho de João, como sendo exclusivamente Cristo, já foram mencionados sob o intertítulo “Princípios de Interpretação”, do presente artigo. Como o termo parákletos é usado para Cristo em 1 João 2:1, Nicotra se sente na liberdade de afirmar, desconhecendo os
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diferentes contextos do Evangelho de João, que todos os usos do termo naquele evangelho também se referem apenas a Cristo (p. 70-85). Mas, se o Consolador fosse o próprio Cristo, como interpretar a seguinte declaração de Cristo: “convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (Jo 16:7)? E como explicar que o mesmo Consolador viria com a missão de glorificar a Cristo (Jo 16:14)? A pretensa “clareza meridiana” interpretativa que Nicotra alega ter encontrado, a ponto de asseverar que “não há mais dúvidas” (p. 85), não parece tão clara assim.
James Robertson, em sua obra Ensinos de Jesus, declara de forma convincente:
Do ensino de Jesus, não resta a menor dúvida que o outro Paracleto é uma pessoa. A cada passo Jesus fala desta maneira: “Ele vos ensinará todas as coisas”; “Ele me glorificará”. Personalidade está implicada no título “Paracleto”, o qual, em algumas versões, é traduzido impropriamente “Confortador”. A palavra significa “um que é chamado para ficar ao nosso lado, especialmente em ocasiões de dificuldade e conflito”. É, portanto, a palavra que designa um advogado, e é assim usada a respeito de Jesus mesmo, em 1 João 2:1, onde lemos: “Nós temos um Paracleto (advogado) com o Pai, Jesus Cristo, o justo.” Como, porém, a palavra significa “um que, em qualquer circunstância, pela sua presença, dá força”, ela pode ser traduzida também por Ajudador, Consolador, Encorajador. Ela designa alguém que, em comunhão conosco, nos sustenta no dever e nos conforta na tristeza. Mas, à vista da ênfase com que Jesus representa o Paracleto tomando parte com os discípulos na luta contra um mundo hostil, ela pode bem ser traduzida ainda por Socorredor e Campeão. Na ante-visão que Jesus nos dá, tão distintamente, da hostilidade do mundo, em João 15:18-17:11, e no conflito contra o mundo, e no testemunho que os seus discípulos teriam de dar, o Paracleto surge como um Campeão, cuja intervenção na luta seria decisiva. “Quando o Paracleto vier ... dará testemunho de mim”. “Quando ele vier, convencerá o mundo de pecado, de justiça e de Juízo; de pecado, porque não crêem em mim; de justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; de juízo, porque o príncipe deste mundo está julgado.” (João 16:8-11). A intervenção do Paracleto é “robusta e enérgica”; é mais do que animar e confortar. Está implicada também, no ensino de Jesus, que o outro Paracleto é uma pessoa divina. Jesus não poderia dizer que era melhor que Ele fosse, se o seu substituto fosse menos do que divino. Nem poderia ter dito que “ao que disser alguma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; porém, ao que falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro” (Mat. 12:32). Também não poderia ter juntado “o Pai, o Filho e o Espírito Santo”, como o faz na fórmula do batismo (Mat. 28:19), se todos os três não fossem divinos.66
Cremos, portanto, que a interpretação de James Robertson sobre o parákletos no Evangelho de João como o Espírito Santo é bem mais coerente com o contexto bíblico do que a teoria de uma mera emanação de Cristo, proposta por Nicotra (p. 79).

O trono do Espírito Santo
Um dos argumentos mais comuns contra a doutrina da Trindade é a alegação de que o livro do Apocalipse não apresenta qualquer alusão a um “trono” do Espírito Santo. Nicotra chega mesmo a desafiar: “O livro do Apocalipse menciona apenas o trono de Deus e do Cordeiro [Ap 22:1, 3]. Onde está o trono do Espírito Santo?” (p. 34-35). Aqui Nicotra parece se valer mais uma vez de um “silogismo grego” semelhante aos que ele condena nas p. 100-101 do seu livro. Desta vez, o argumento básico seria o seguinte: Premissa A: Todas as pessoas da Divindade devem ocupar um lugar no trono do universo. Premissa B: O Espírito Santo não é mencionado como estando nesse trono. Conclusão: Logo, o Espírito Santo não é uma pessoa.
As Escrituras mencionam o “trono” de Deus existente nas cortes celestiais tanto no singular (Sl 9:7; Ap 4:2; 22:1, 3; etc.) como no plural (Dn 7:9). Um breve estudo do uso bíblico desse termo é suficiente para esclarecer que ele indica não apenas soberania e majestade (Sl 45:6; Is 6:1-4; etc.) como também julgamento (Sl 9:7, 8; Dn 7:9, 10; etc.). Ellen White descreve o início do juízo investigativo pré-advento em 1844 como envolvendo um deslocamento tanto do Pai quanto do Filho de sobre o trono do Lugar Santo para outro trono no Lugar Santíssimo do santuário celestial (cf. Dn 7:9-14).67 Portanto, independente da ocasião e das circunstâncias envolvidas, a expressão “trono”, quando usada em relação a Deus, possui geralmente uma conotação mais funcional do que essencial.
É interessante observarmos que Cristo exerce ao mesmo tempo os ofícios sacerdotal e real em Seu trono. Já em Zacarias 6:13 encontramos a seguinte profecia messiânica: “Ele mesmo edificará o templo do Senhor e será revestido de glória; assentar-se-á no seu trono, e dominará, e será sacerdote no seu trono; e reinará perfeita união entre ambos os ofícios”. Como rei, Cristo exerce também a função de juiz. Em João 5:22 é dito: “E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo julgamento”. Portanto, é plenamente evidente que Cristo deva compartilhar com o Pai o trono do universo.
O Espírito Santo, por Sua vez, exerce funções diferentes nos planos divinos. Entre elas estão as de representar a Deus no universo (Sl 139:7-12), convencer os seres humanos “do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16:8), glorificar a Cristo (Jo 16:14), derramar “o amor de Deus” no coração dos crentes (Rm 5:5), edificar internamente a igreja (1Co 12) e capacitá-la para o testemunho (At 1:8). Mesmo depois da final erradicação do pecado, o Espírito Santo continuará exercendo a função de Mantenedor do universo (cf. Gn 1:2). Não é de surpreender, por conseguinte, que Ele não seja mencionado como soberano ou juiz sobre o trono do universo.

Na Bíblia encontramos vários textos que mencionam ao mesmo tempo o Pai, o Filho e o Espírito Santo (ver Is 48:16; Mt 28:19; Lc 3:21, 22; 2Co 13:13; Tt 3:4-7; etc.). Embora o Espírito Santo não seja mencionado explicitamente em Apocalipse 22:1 e 3 com o Pai e o Filho sobre o trono do universo, esse fato jamais deveria ser usado para invalidar os demais textos bíblicos que mencionam o Espírito Santo como exercendo funções distintas do Pai e do Filho.

A autenticidade de Mateus 28:19
Muito já foi dito acima sobre a expressão “batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” de Mateus 28:19. Mas cremos que ainda seria conveniente transcrevermos o seguinte comentário de R. V. G. Tasker sobre esse assunto:
Afirma-se muitas vezes que as palavras em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo não são as ipsissima verba de Jesus, mas, ou são palavras do evangelista postas em sua boca, ou um acréscimo litúrgico posterior. Argumenta-se que nos lábios de Jesus elas seriam um anacronismo; que a igreja primitiva na verdade não as empregou como fórmula batismal até o século segundo; e que Eusébio de Cesaréia, ao citar esta passagem, muitas vezes omite ou altera estas palavras. Por outro lado, as palavras se acham em todos os MSS existentes; e é difícil ver por que o evangelista as teria inserido se na ocasião em que estava escrevendo não faziam parte da liturgia da igreja. Também é difícil supor que, se Eusébio tivesse realmente sabido de MSS que omitiam estas palavras, não sobrevivesse algum traço da influência 22
destes MSS na tradição textual. Ademais, bem pode ser que a verdadeira explicação por que a igreja primitiva não ministrou logo o batismo no nome tríplice seja que as palavras de 28:19 não foram ditas originalmente por nosso Senhor com a intenção de serem uma fórmula batismal. Ele não estava dando instruções sobre as palavras a serem de fato usadas no ofício do batismo, mas, como já se sugeriu, estava indicando que, pelo batismo, a pessoa batizada passaria a ser possessão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Há boa evidência de que o idiotismo grego, eis to onoma (“para dentro do nome”, não “no nome”) poderia comunicar este significado. Além disso, parece que o batismo que o Cristo ressurreto está aqui ensinando os seus discípulos a praticarem não era uma simples restauração do batismo de João para arrependimento, nem a continuação do batismo praticado por Ele e seus discípulos antes, no seu ministério. Era essencialmente o novo sacramento, pelo qual homens e mulheres haviam de submeter-se à influência do Trino Deus para serem usados em seu serviço. As palavras, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo são, pois, enfáticas e essenciais ao texto. Sem elas, a referência ao batismo seria indeterminada e convencional.
Tampouco o fato de ser um tanto surpreendente ver as três Pessoas da Trindade mencionadas por Jesus é um insuperável argumento contra a historicidade das palavras. Ele falara constantemente do “Pai”; em [Mateus] 11.27 e em 24.36, e muitas vezes no quarto evangelho, Ele é apresentado falando de Si como “o Filho”; e muitas vezes fizera referência ao “Espírito” que seria “o outro Consolador” quando findasse o seu ministério terreno. Quão, natural, é pois, que em sua comissão final a seus discípulos, desse, nas palavras de Swete, “um magnífico sumário de todo o seu disperso ensino sobre o Pai, o Espírito, e as suas próprias relações com ambos ... não o dando como um dogma a ser pregado, mas comunicando uma vida de comunhão, de consagração, de divina plenitude e poder”! E quão estreitamente esta “comunicação” se liga às fortalecedoras palavras com que o evangelho termina! O Cristo ressurreto garante aos seus seguidores, no que Levertoff chama de “a maior conclusão que qualquer livro poderia ter”, que, o que quer que o futuro lhes reserve[,] Ele estará com eles no Espírito que lhes enviará da parte do Pai, sempre, até o fim do mundo (VA), isto é, conforme o significado do grego, heos tes sunteleias tou aionos, “até à consumação da era presente” (RA: até à consumação do século), quando terá início a nova era, inaugurada pelo retorno do Senhor em glória.68
As considerações anteriores confirmam nossa convicção de que (1) Deus preservou a Bíblia em suas línguas originais, evitando que nela fossem acrescidas quaisquer interpolações heréticas; (2) a natureza do Espírito Santo é um mistério que pode ser entendido apenas até onde Deus julgou conveniente revelar nas Escrituras; (3) a teoria da Bindade é parcial e não corresponde à revelação bíblica de Deus como uma Tri-unidade; (4) Deus o Filho é co-eterno com o Pai, jamais tendo um início, mesmo antes do tempo ou da eternidade; (5) o Espírito Santo é uma Pessoa e não meramente uma emanação despersonalizada de Deus; (6) o parákletos divino no Evangelho de João é o Espírito Santo, e não Cristo, como em 1 João 2:1; (7) a palavra “trono” na Bíblia possui uma conotação funcional que jamais deveria ser usada para negar a existência do Espírito Santo como um Ser distinto do Pai e do Filho; e (8) a expressão “batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” em Mateus 28:19 deve ser considerada como autêntica, e seu conteúdo, como um resumo adequado dos próprios ensinos de Cristo.

Considerações finais
O presente artigo fornece uma análise crítica das idéias e conceitos básicos de “Eu e o Pai Somos Um”. Mesmo em face de tudo o que foi dito, é bem provável que os antitrinitarianos simplesmente desconheçam todos os argumentos acima apresentados, e
busquem questiúnculas não abordadas no presente estudo, para dizer que suas idéias não foram respondidas a contento. Não é de surpreender também que rotulações e ataques pessoais sejam usados como um mecanismo de autodefesa, na tentativa de neutralizar o conteúdo deste artigo. Sugerimos, porém, que o leitor jamais permita que recursos retóricos ofusquem a objetividade de uma clara análise conceitual do texto bíblico, comparando e contrastando o conteúdo do livro “Eu e o Pai Somos Um” com a presente análise crítica. Cada cristão deveria seguir o exemplo dos bereanos, que examinavam “as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” (At 17:11).

A compreensão da natureza de Deus em geral, e do Espírito Santo em particular, é demasiadamente importante e sagrada para alimentarmos idéias especulativas a respeito. Nicotra asseverou, de forma pertinente, que “blasfemar contra o Espírito Santo é desprezar as inúmeras evidências bíblicas sobre sua obra e natureza. É se agarrar a conceitos pré-estabelecidos desprezando a luz que emana da Palavra de Deus” (p. 67). Nicotra poderia ter evitado muitos constrangimentos desnecessários, houvesse ele tão somente colocado em prática em “Eu e o Pai Somos Um” esse sábio conselho. Sua maior falha foi, sem dúvida, aventurar-se em estudos demasiadamente profundos para a lógica humana (ver Rm 11:33), sem princípios hermenêuticos suficientemente sólidos, e sem aplicá-los de modo consistente.

Cremos que a doutrina da Trindade possui um sólido fundamento bíblico, e que Joroslav Pelikan está correto em afirmar que essa doutrina “foi apenas confirmada, e não inventada, em Nicéia”.69 Algumas pessoas podem descrer da personalidade do Espírito Santo e até mesmo negar a Sua existência como um Ser distinto do Pai e do Filho. Mas para os adventistas do sétimo dia a aceitação do Espírito Santo como uma “pessoa divina” é uma questão de fidelidade ao texto inspirado.70 Num momento em que a igreja mais precisa do poder do Espírito Santo para finalizar a pregação do “evangelho eterno” no mundo (Ap 14:6), não podemos permitir que pessoas dividam as comunidades adventistas com idéias espúrias sobre a natureza e obra do Espírito Santo.

Referências:
1. O conteúdo da presente resenha crítica reflete idéias compartilhadas por uma comissão avaliadora composta pelos seguintes professores do Curso de Teologia do Unasp, Campus Engenheiro Coelho: Alberto R. Timm (relator), Amin A. Rodor, Emilson dos Reis, José Carlos Ramos, José Miranda Rocha, Natanael B. P. Moraes, Reinaldo W. Siqueira, Rodrigo P. Silva, Ruben Aguilar dos Santos e Wilson L. Paroschi.
2. Douglas S. Huffman e Eric L. Johnson, eds., God under Fire: Modern Scholarship Reinvents God (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2002).
3. Para um estudo mais detalhado do antitrinitarianismo dos pioneiros adventistas, ver Woodrow Whidden, Jerry Moon e John W. Reeve, A Trindade: como entender os mistérios da pessoa de Deus na Bíblia e na história do cristianismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), 217-230.
4. Alberto R. Timm, “A History of Seventh-day Adventist Views of Biblical and Prophetic Inspiration (1844-2000)”, Journal of the Adventist Theological Society 10/1-2 (1999): 486-499.
5. Woodrow Whidden, Jerry Moon e John W. Reeve, The Trinity: Understanding God’s Love, His Plan of Salvation, and Christian Relationships (Hagerstown, MD: Review and Herald, 2002).
6. Whidden, Moon e Reeve, A Trindade.
7. Ricardo Nicotra, “Eu e o Pai Somos Um”. E o Espírito Santo? Não faz parte da Trindade?, 2ª ed. (São Paulo: Ministério Bíblico Cristão, 2004).
8. As informações biográficas e históricas contidas no subtítulo “Antecedentes históricos” foram fornecidas por Fabiano Ramos Medes, aluno do 3º ano do Curso de Teologia do Unasp – Campus Engenheiro Coelho, com
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base em entrevista pessoal por ele realizada com Ricardo Nicotra no dia 5 de setembro de 2005, em São Paulo, SP.
9. Livro de Praxes da Divisão Sul-Americana (Brasília, DF: Divisão Sul-Americana, 1993).
10. Ver Lewis R. Walton, Ômega (São Paulo: Instituto Adventista de Ensino, s.d.), 5-65; idem, Omega II: God’s Church at the Brink (Glennville, CA: Lewis R. Walton, 1995), 5-120.
11. Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, 2ª ed. (Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1985), 1:193-208.
12. Legislação Brasileira, Código de Processo Penal, 42ª ed. (São Paulo: Saraiva, 2002).
13. Hugh Chisholm, ed., The Encyclopaedia Britannica, 11ª ed., 29 vols. (Nova York: Encyclopaedia Britannica, 1910).
14. Maurice A. Canney, An Encyclopaedia of Religions (Londres e Nova York: G. Routledge & Sons / E. P. Dutton & Co., 1921).
15. Frank M. Colby e Talcott Williams, eds., The New International Encyclopaedia, 2ª ed., 24 vols. (Nova York: Dodd, Mead and Co., 1917).
16. James Hastings, ed., Encyclopaedia of Religion and Ethics, 12 vols. (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1922).
17. A Bíblia de Jerusalém (São Paulo: Paulinas, 1981).
18. Hollenberg e Budde, Gramática Elementar da Língua Hebraica, 5ª ed. (São Leopoldo, RS: Sinodal, 1985).
19. Wikipedia: The Free Encyclopedia, em http://en.wikipedia.org.
20. Catecismo do Católico de Hoje, 28ª ed. (Aparecida, SP: Editora Santuário, 2002).
21. Alejandro Bullón, O Terceiro Milênio e as Profecias do Apocalipse: como viver sem medo do futuro (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1998).
22. Uma clássica exposição antitrinitariana das alusões de Eusébio de Cesaréia a Mateus 28:19 foi provida por Fred. C. Conybeare, “The Eusebian form of the Text Matth. 28, 19,” Zeitschrift für die neutestamentliche Wissenschaft und die Kunde des Urchristentums (1901): 275-288.
23. Ver, por exemplo, Augustus H. Strong, Systematic Theology (Valley Forge, PA: Judson Press, 1907), 243-352; Charles Hudge, Systematic Theology (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1995), 1:366-534; Louis Berkhof, Systematic Theology (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1958), 19-99; Millard J. Erickson, Christian Theology (Grand Rapids, MI: Baker, 1985), 261-342; Gordon R. Lewis e Bruce A. Demarest, Integrative Theology (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1987), 1:175-289; Wayne Grudem, Systematic Theology: An Introduction to Biblical Doctrine (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1994), 139-261; Alister E. McGrath, Christian Theology: An Introduction (Oxford: Blackwell, 1994), 205-308.
24. Ver, por exemplo, Herman Bavinck, The Doctrine of God (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1979); Millard J. Erickson, God in Three Persons: A Contemporary Interpretation of the Trinity (Grand Rapids, MI: Baker, 1995); idem, Making Sense of the Trinity: 3 Crucial Questions (Grand Rapids, MI: Baker, 2000).
25. Nisto Cremos: 27 ensinos bíblicos dos adventistas do sétimo dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1989), 31-98.
26. Fernando L. Canale, “Doctrine of God”, in Raoul Dederen, ed., Handbook of Seventh-day Adventist Theology, Commentary Reference Series, vol. 12 (Hagerstown, MD: Review and Herald, 2000), 105-159.
27. Max Hatton, Understanding the Trinity (Alma Park Grantham, Lincolnshire, Inglaterra: Autumn House, 2001).
28. Whidden, Moon e Reeve, Trindade.
29. Alusões às declarações desses autores, confirmando a autenticidade de Mateus 28:19, podem ser encontradas em José Carlos Ramos, “Mateus 28:19 – falso ou autêntico?”, Revista Adventista (Brasil), maio de 2005, 10-11; Rodrigo P. Silva, “Trindade: um dogma de Constantino?” Revista Adventista (Brasil), julho de 2005, 14-16.
30. A noção de que o Credo de Cesaréia, escrito por Eusébio, tenha servido de base para a elaboração do Credo Niceno é contestada por J. N. D. Kelly em sua obra Early Christian Creeds, 3ª ed. (Harlow, Inglaterra: 25
Longman, 1972), 181-230. De acordo com Kelley, o Credo de Cesaréia é autêntico e foi escrito, provavelmente com a “terminação mais longa”, por Eusébio (ibid., 182), e apresentado por ele diante do Concílio de Nicéia com o propósito de “livrar-se das nódoas de heresia [ariana] e obter, desta forma, sua reabilitação teológica” (ibid., 226). Ver também Jaroslav Pelikan, The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine (Chicago: University of Chicago Press, 1971), 1:201-202.
31. Philip Schaff, ed., The Creeds of Christendom (Grand Rapids, MI: Baker, 1990), 2:29-30.
32. Ellen G. White, O Grande Conflito entre Cristo e Satanás, 41ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001), 574. Philip Schaff, em sua History of the Christian Church (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1910), 2:866, também qualifica o bispo Eusébio de Cesaréia de “amigo e elogiador” do imperador Constantino.
33. Eusébio de Cesaréia, A Vida de Constantino, I, IV. Tradução baseada em NPNF, 2ª série, 1:482.
34. Edward Gibbon, The Decline and Fall of the Roman Empire (Nova York: Modern Library, s.d.), 1:683, 693; E. Venables, “Eusebius of Caesarea”, in Henry Wace e William C. Piercy, eds., A Dictionary of Christian Biography (Peabody, MA: Hendrickson, 1994), 318-319; Arthur C. McGiffert, A History of Christian Thought (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1954), 258-275; Bernhard Lohse, A Short History of Christian Doctrine, ed. Americana rev. (Philadelphia: Fortress, 1985), 53.
35. Benjamin J. Hubbard, The Matthean Redaction of a Primitive Apostolic Commissioning: An Exegesis of Matthew 28:16-20, SBL Dissertation Series 19 (Missoula, MT: Scholars’ Press, 1974), 175.
36. No CD-ROM The Complete Published Ellen G. White Writings (versão 3.0) aparece 168 vezes a expressão “batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”, levando-se em consideração as variantes “Holy Spirit” e “Holy Ghost”. Se essa expressão fosse uma interpolação herética, como alegam alguns, cremos que Ellen White não a teria repetido tantas vezes em seus escritos publicados.
37. Cf. Bernhard Lohse, A Short History of Christian Doctrine, ed. Americana rev. (Philadelphia: Fortress, 1985), 52: “A confissão de Nicéia não deve ser confundida com a confissão que hoje nos cultos é freqüentemente chamada de Credo Niceno. Em realidade, este último deveria ser designado como Credo Niceno-Constantinopolitano (381).”
38. Ver Nestle-Aland, eds., Greek-English New Testament – Editio XXVII, 8ª ed. rev. (Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1994), 87 (em grego).
39. Strong, Systematic Theology, 7.
40. Para um estudo mais minucioso do termo hebraico ruach, ver J. Barton Payne, “rûah”, em R. Laird Harris, ed., Theological Wordbook of the Old Testament (Chicago: Moody, 1980), 2:836-837; Tengström e Fabry, “rûah”, em G. Johannes Botterweck, Helmer Ringgren e Heinz-Josef Fabry, Theological Dictionary of the Old Testament (Grand Rapids, MI: Eerdamns, 2004), 13:365-402.
41. Para um estudo mais detido do termo grego pneuma, ver Gerhard Friedrich, ed., Theological Dictionary of the New Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1968), 6:332-455; E. Kamlah e J. D. G. Dunn, “Espírito, Espírito Santo”, Colin Brown, ed., O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 1982), 2:122-149.
42. Ver referências bibliográficas 23-28, acima.
43. Ver, por exemplo, Ellen G. White, Evangelismo, 3ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), 613-617; idem, O Desejado de Todas as Nações, 22ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), 671; comentários de E. G. White em Seventh-day Adventist Bible Commentary, ed. rev. (Washington, DC: Review and Herald, 1980), 6:1074. Para um estudo mais detido do assunto, ver Whidden, Moon e Reeve, A Trindade, 231-261.
44. E. G. White, Evangelismo, 617.
45. Eusébio de Cesaréia, História eclesiástica, III, XXXIX, 16. Tradução baseada em NPNF, 2ª série, 1:173.
46. Donald A. Hagner, Matthew 1-13, World Biblical Commentary, vol. 33A (Dallas, TX: Word, 1993), xiv.
47. Tradução do Nôvo Mundo das Escrituras Sagradas (Brooklyn, Nova York: Watchtower Bible and Tract Society, 1967), 1052.
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48. Ver Ellen G. White, Spiritual Gifts, [vol. 1] – “The Great Controversy, between Christ and His Angels, and Satan and His Angels” (Battle Creek, MI: James White, 1858), 103-119; republicado em português em idem, Primeiros Escritos, 6ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1999), 210-222.
49. Ver Ellen G. White, The Spirit of Prophecy, vol. 4 – “The Great Controversy between Christ and Satan from the Destruction of Jerusalem to the End of the Controversy” (Oakland, CA: Pacific Press, 1984), 39-65; republicado parcialmente em português em idem, História da Redenção, 9ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2002), 320-334.
50. Ver Ellen G. White, The Great Controversy between Christ and Satan during the Christian Dispensation (Oakland, CA: Pacific Press, 1888), 49-60; idem, The Great Controversy between Christ and Satan: The Conflict of the Ages in the Christian Dispensation (Washington, DC: Review & Herald, 1911), 49-60; publicado em português como O grande conflito, 49-60.
51. Quanto é do nosso conhecimento, o pastor Enoch de Oliveira foi o único adventista brasileiro a receber o título honorífico de “Doutor em Divindade”, que lhe foi conferido pela Andrews University (Joel Sarli, “Andrews University confere ao Pastor Enoch de Oliveira o título honorífico de Doutor em Divindade”, O Ministério Adventista (Brasil), novembro-dezembro de 1975, 14-15). O pastor João Wolff recebeu o título de “Doutor Honoris Causa” da Southwestern Adventist University (“Universidade americana outorga título ao Pastor Wolff”, Revista Adventista (Brasil), junho de 1993, 14).
52. Bernard Ramm, Protestant Biblical Inter-pretation: A Textbook of Hermeneutics, 3ª ed., rev. (Grand Rapids, MI: Baker, 1970), 37.
53. E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, 671.
54. W[alter] S[chubert], “Caixa de perguntas”, O Pregador Adventista, janeiro-fevereiro de 1949, 22-23.
55. Francis D. Nichol, ed., The Seventh-day Adventist Bible Commentary (Washington, DC: Review and Herald, 1957), 7:675.
56. Pedro Apolinário, Estudo de passagens com problemas de interpretação (São Paulo: Instituto Adventista de Ensino, 1986), 302; ver também p. 302-307.
57. CD-ROM The Complete Published Ellen G. White Writings (versão 3.0).
58. Ver nota 36, acima.
59. Ellen G. White, Testimonies for the Church (Mountain View, CA: Pacific Press, 1948), 5:171.
60. Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, 8ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1999), 52.
61. Cf. E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, 114: “Quando Jesus foi levado ao deserto para ser tentado, foi levado pelo Espírito de Deus. Não convidou a tentação.”
62. E. G. White, Evangelismo, 616.
63. Leon Morris, The Gospel According to John, The New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1971), 105, n. 93.
64. E. G. White, O Desejado de Todas as Nações, 530.
65. Antônio Houaiss, Mauro de Salles Villar, e Francisco Manoel de Mello Franco, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 1ª reimpressão com alterações (Rio de Janeiro: Objetiva, 2004), 1114 (“emanação”).
66. James Robertson, Ensinos de Jesus (São Paulo: União Cultural, s.d.), 146-147.
67. Ver E. G. White, Primeiros Escritos, 54-56, 92-93.
68. R. V. G. Tasker, Evangelho Segundo Mateus: introdução e comentário (São Paulo: Vida Nova / Mundo Cristão, 1980), 218-219.
69. Jaroslav Pelikan, The Vindication of Tradition (New Haven: Yale University Press, 1984), 27.
70. Ver E. G. White, Evangelismo, 613-617.
Fonte: Parousia, ano 4, nº 2 (2º semestre de 2005), p. 69-93. Usado com permissão.
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