terça-feira, 8 de setembro de 2020

A importância das datas de 508 e 538 d.C. para a supremacia papal1

Alberto R. Timm, Ph.D. Professor de Teologia Histórica no SALT, Unasp, Campus Engenheiro Coelho, e diretor o Centro de Pesquisas Ellen White - Brasil

Resumo: As datas de 508 e 538 d.C. são muito significativas para os adventistas do sétimo dia. A primeira é tradicionalmente reconhecida como o início dos 1.290 e 1.335 dias/anos de Daniel 12:11 e 12, e a segunda, como ponto de partida dos 1.260 dias/anos de Apocalipse 11:3 e 12:6. O presente artigo descreve o contexto histórico dessas datas, bem como o papel exercido por eventos importantes no processo de estabelecimento da supremacia papal.

Abstract: The dates of A.D. 508 and 538 are very significant for Seventh-day Adventists. The first is traditionally aknowledged as the beginning of the 1,290 and 1,335 days/years of Daniel 12:11, 12, and the second, as the starting point of the 1,260 days/years of Revelation 11:3 and 12:6. The present article describes the historical background of those dates, as well as the rule played by major events in the process of establishment of papal supremacy.

Introdução:  Uma das principais características da teologia adventista é a interpretação historicista das profecias apocalípticas das Escrituras  fundamentada no assim chamado princípio dia-ano de interpretação profética.2 Baseado na idéia de que cada dia profético representa um ano literal, as 70 semanas de Daniel 9:24-27 devem ser vistas como sendo 490 anos; os 1.260 dias de Apocalipse 11:3 e 12:6 (ver também Dn 7:25; 12:7; Ap 11:2; 12:14; 13:5), como sendo 1.260 anos; os 1.290 dias de Daniel 12:11, como sendo 1.290 anos; os 1.335 dias de Daniel 12:12, como sendo 1.335 anos; e as 2.300 “tardes e manhãs” de Daniel 8:14,3 como sendo 2.300 anos.

Tradicionalmente, os adventistas do sétimo dia apontam o ano 508 d.C. como sendo o início dos 1.290 e dos 1.335 anos, e, 30 anos depois, o ano 538 d.C. como sendo o início dos 1.260 anos.4 A principal data de referência para esses cálculos tem sido o ano de 1798 d.C., quando o papa Pio VI foi capturado e aprisionado na França, vindo a morrer no exílio.5 Subtraindo os 1.260 anos de 1798, os intérpretes adventistas chegaram até o ano de 538. Tirando 1.290 anos de 1798, eles chegaram ao ano de 508. Enquanto que os 1.290 e os 1.260 anos tiveram seu término no mesmo ano de 1798, os 1.335 anos são contados como terminando 45 anos depois, entre 1843-1844 (veja o diagrama abaixo).


Embora a data de 1798 esteja bem estabelecida pelo importante evento que foi o aprisionamento do papa, o significado de 508 e 538 tem sido questionado por diversos intérpretes críticos que consideram essas datas como destituídas de um sentido histórico mais relevante.6 Mas, se vistas dentro do amplo contexto de estabelecimento da supremacia papal, as datas tomam sentido como importantes expressões desse processo.

Entre os estudos mais relevantes das fontes históricas que sustentam essas datas figuram os de Uriah Smith, intitulado The Prophecies of Daniel and the Revelation (1944),7 e a dissertação de mestrado de C. Mervyn Maxwell, sob o título “An Exegetical and Historical Examination of the Beginning and Ending of the 1260 Days of Prophecy with Special Attention Given to A.D. 538 and 1798 as Initial and Terminal Dates” (1951).8 Mas parece evidente que essas investigações poderiam ser ampliadas, levando-se em consideração uma perspectiva histórica mais ampla.

Diante disso, a presente investigação visa a prover uma contextualização histórica progressiva, que nos permita ver mais claramente o grau de validade das datas de 508 e 538 no contexto da interpretação profética. Devido às limitações de tempo e espaço, esta investigação se detém apenas nos principais desenvolvimentos históricos relacionados com o assunto em discussão. A pesquisa bibliográfica se limitou basicamente às fontes disponíveis em língua inglesa. Estudos futuros deveriam abranger também as fontes existentes em outras línguas, especialmente em latim, alemão, francês e italiano.

O contexto histórico de 508 d.C.


Eventos históricos não podem ser analisados com propriedade sem que se reconheçam os desenvolvimentos prévios que os geraram. É evidente, portanto, que nenhuma análise crítica séria pode ser feita quanto ao uso dos anos 508 e 538 d.C. semque se leve em consideração alguns passos significativos, prévios, rumo à união entre a Igreja e o Estado, e o crescimento da autoridade temporal do bispo de Roma. O contexto histórico do ano 508 inclui importantes eventos como a conversão de Constantino, a publicação do livro de Agostinho De Civitate Dei (A Cidade de Deus) e a conversão de Clóvis.

A conversão de Constantino


Analisando-se a história dos primeiros séculos da Igreja Cristã, percebe-se que a conversão do Imperador Constantino, em 312 d.C., não apenas se tornou um importante referencial nas relações entre a Igreja e o Estado, mas também gerou uma mudança radical no status do Cristianismo. Tendo sido perseguido no passado, o Cristianismo conseguiu certa tolerância a partir de 311 por meio de um edito imperial.9 Foi, porém, o Edito de Milão, promulgado em 313 pelos imperadores Constantino e Licínio, que concedeu aos cristãos completa liberdade de culto.10

Durante os anos seguintes, sob a liderança de Constantino, as propriedades eclesiásticas confiscadas foram restauradas à Igreja, e o “Dia do Sol” (domingo) foi imposto “como um dia de descanso e culto”. Além disso, Constantino assumiu “uma posição de liderança teológica no concílio de Nicéia, em 325, quando arbitrou a controvérsia ariana”.11 

Depois que Constantino mudou a capital do império de Roma para Constanti-nopla em 330, a liderança do bispo de Roma acabou sendo deixada sozinha “durante muito tempo”, e os romanos passaram a encará-lo naturalmente como o seu legítimo “líder temporal e espiritual” em situações de crise.12

A despeito do fato de Constantino jamais haver resignado sua posição como Pontifex Maximus, principal sacerdote da religião pagã estatal,13 suas decisões já eram “um grande ponto crucial”14 na história do Cristianismo. De acordo com Daniel Walther, “embora antes de 313 fosse difícil ser um cristão, era difícil não ser um cristão após essa data”.15 

O processo de conceder privilégios à Igreja foi seguido pelos imperadores subseqüentes. O título de Pontifex Maximus não foi mais usado pelo Imperador Graciano. Em 380, Teodósio I promulgou “um edito tornando o Cristianismo a religião exclusiva do Estado”, e “qualquer pessoa que seguisse outra forma de culto seria punida pelo Estado”. Por meio do Edito de Constantinopla, em 392, os cultos pagãos tornaram-se ilegais. Portanto, o Cristianismo acabou se transformando finalmente na religião do Estado, e começou a perseguir o paganismo da mesma forma como o paganismo o havia perseguido antes.16

A Cidade de Deus de Agostinho

Ao mesmo tempo em que a Igreja Romana se tornava cada vez mais poderosa, o Império Romano enfrentava uma crescente fraqueza interna. Cônscio dessa realidade, Alarico invadiu a Itália com os visigodos em 401. Como as autoridades romanas não tinham mais condições de recrutar forças militares suficientes para deter as invasões desses povos bárbaros, os visigodos saquearam Roma em 410. Que a “Roma Eterna”, amada pelos deuses, fosse tratada dessa forma apenas podia ser interpretado pelos pagãos como a conseqüência do abandono dos seus antigos deuses, cuja adoração havia sido considerada ilegal desde 392.17

Em resposta a essa acusação, Agostinho escreveu, entre 413 e 426, sua famosa obra intitulada De Civitate Dei (A Cidade de Deus).18 Embora o livro fosse escrito originalmente para solucionar um problema específico da época, sua influência na história da Igreja Cristã vai muito além do seu tempo. Thomas Merton enfatiza o fato de que “a visão de Santo Agostinho da história é a visão mantida pela Igreja Católica e por toda a tradição católica”.19

Os historiadores concordam que Carlos Magno “encontrou na Cidade de Deus, de Santo Agostinho, uma inspiração para o Império Cristão que ele esperava reerguer no mundo transformado dos séculos 8º e 9º”.20 R. W. Collins vai além em declarar que “foi, sem dúvida, a Cidade de Deus que proveu a teoria do poder temporal do papado, com suas pretensões de domínio mundial”.21 L. P. Qualben explica que
a “Cidade de Deus” exerceu uma profunda influência sobre o Cristianismo ocidental. Ela formou o pano de fundo religioso para a teoria do papado medieval. A Cúria Romana da Idade Média transformou realmente a Civitas Dei [cidade de Deus] na Civitas Terrena [cidade terrestre], representada pelo império visível da Igreja governado pelo Bispo de Roma. A “Cidade de Deus” acentuou também a forte distinção entre o sagrado e o secular, que ainda continua exercendo tão grande influência sobre a civilização ocidental.22  

A conversão de Clóvis

As invasões das tribos bárbaras trouxeram não apenas um problema político para o Império Romano, mas também muitas dificuldades para as pretensões do bispo de Roma. Além da tarefa de converter muitas tribos do paganismo, havia também o problema de converter os visigodos e os lombardos do arianismo para a ortodoxia cristã.23

Mas um evento muito significativo ocorreu quase no fim do quinto século. Em 493, Clóvis I, rei dos francos, casou-se com Clotilde, princesa católica de Borgonha.24 Mesmo permitindo que seus filhos fossem batizados, ele próprio hesitava abjurar “a fé dos seus ancestrais”.25 Mas ele viu também que a Igreja Católica Romana se tornaria “o grande poder eclesiástico do futuro”, e se defrontou com a questão básica: Deveria o seu grande poder político crescer “em aliança com esse outro poder ou em oposição a ele?”26 

À semelhança de Constantino,27 Clóvis começou a perceber “a força que ele ganharia se aceitasse o Cristianismo”,28 e, durante uma batalha com os alamanos, ele jurou aceitar o Deus de Clotilde e se tornar um cristão se saísse vitorioso.29 Em decorrência de sua vitória, ele foi batizado no dia de Natal de 49630 “com três mil de seus soldados pelo Bispo Remígio de Reims”31 que proferiu na ocasião as conhecidas palavras: “Inclina a tua cabeça em humildade, ó sicambriano; adora o que havias queimado e queime o que havias adorado”.32

De acordo com E. E. Cairns, “a aceitação do Cristianismo por Clóvis teria efeitos duradouros na história futura da Igreja”.33 H. Rosenberg afirma que “a conversão de Clóvis lançou os fundamentos para uma importante aliança entre o papado e os francos”.34 É evidente que “isto não significa que o papa teve imediatamente grande influência sobre a política real”, mas o fundamento foi lançado naquela ocasião, pois “foram apenas os francos que se tornaram, de todas as tribos germânicas, um amplo poder na história geral da Idade Média”.35

E. Emerton declara que
 o papa ficou, por conseguinte, cheio de satisfação ao ouvir que o recém converso franco havia assumido a sua forma de fé cristã. Ele estava pronto a abençoar qualquer empreendimento deles como a obra de Deus, se apenas fosse em oposição aos pagãos arianos. Assim começou, já no ano 500, um acordo entre o papado romano e o império franco que haveria de amadurecer em uma íntima aliança, e de fazer muito para forjar toda a história futura da Europa.36 

Para W. J. Courtenay, a conversão de Clóvis “transformou automaticamente as guerras de Clóvis em guerras santas contra os hereges e os descrentes”.37 Gwatkin e Whitney explicam que os bispos da Igreja de Roma exerceram a mais poderosa influência para apoiar a Clóvis em suas lutas contra as tribos bárbaras pagãs, e mesmo contra aquelas que aderiram à heresia ariana. Com tal apoio, suas guerras assumiram “o caráter de guerras religiosas – cruzadas, valendo-nos do termo usado posteriormente”.38

O ano de 508 d.C.

 Em 507, Clóvis declarou guerra contra os visigodos. Ele era o agressor, e acreditava que “era uma guerra religiosa para libertar a Gália dos hereges arianos”. Reunindo suas tropas, ele fez a elas um vigoroso discurso, no qual declarou: “Entristece-me o fato desses arianos dominarem uma parte da Gália. Marchemos,com a ajuda de Deus, e subjuguemos o seu país”.39 

Sem dúvida, “o elemento religioso foi muito poderoso nessa guerra”,40 “da qual dependia, humanamente falando, a supremacia do credo católico ou do ariano na Europa ocidental”.41 Após a sua vitória, em 508, Clóvis recebeu honras especiais de Roma. De acordo com Auguste Dumas,

em 508, enquanto retornava daquela conquista, Clóvis veio a Tours, oferecendo suas dádivas a São Martinho. Ele viu uma embaixada vindo de Constantinopla. “Ele recebeu, de acordo com Gregório de Tours, do Imperador Anastácio, o diploma de cônsul. Na basílica de São Martinho, ele vestiu-se com uma túnica púrpura, a clâmide, e colocou um diadema sobre a sua cabeça. Então, montado em um cavalo, ele jogou alguns pedaços de ouro e de prata para as pessoas reunidas na estrada. Daquela época em diante, ele era chamado de cônsul e Augusto.” (Hist. Franc., ii, 38).42

Em realidade, Clóvis “aparece como um dos grandes gênios criativos que dão um novo rumo ao curso da história”.43 Ele “foi o fundador da primeira monarquia bárbara plenamente capaz de resistir vitoriosamente aos últimos choques de invasão e de permanecer por muitos séculos”,44 e que “se tornou um sustentáculo vigoroso do papado na baixa Idade Média”.45

Victor Duruy enfatiza apropriadamente o importante papel desempenhado por Clóvis como um grande unificador. Ele diz:

Clóvis foi o primeiro a unir todos os elementos dos quais a nova ordem social seria formada, a saber, os bárbaros, aos quais ele colocou no poder; a civilização romana, à qual ele rendeu homenagem ao receber a insígnia de patriarca e cônsul da parte do Imperador Anastácio; e a Igreja Católica, com a qual ele estabeleceu a frutífera aliança que foi continuada pelos seus sucessores. O Concílio de Orleans havia sancionado essa aliança, reconhecendo a Clóvis como o protetor da Igreja, cujas isenções ele confirmou nesse mesmo concílio. O papa já havia escrito a ele: “O Senhor proveu as necessidades da Igreja por lhe conceder como defensor um príncipe armado com o capacete da salvação: sejas sempre para ela uma coroa de ferro, e ela te concederá a vitória sobre os teus inimigos”.46

George B. Adams também enfatizou o fato de que Clóvis

uniu os romanos e os germanos em termos iguais, preservando cada um deles as fontes de sua força, para formar uma nova civilização. Ele fundou um poder político que haveria de unir em si quase todo o continente, e dar fim ao período das invasões. Ele estabeleceu uma íntima aliança entre as duas grandes forças controladoras do futuro, os impérios que continuaram a unidade criada por Roma, o império político e o eclesiástico. 47 

O mesmo autor explica o significado eclesiástico dessa aliança, na seguinte declaração:

É provável que o Império Franco poderia ter sido formado sem essa aliança. É possível também que uma organização eclesiástica comum poderia ter sido criada para todas as suas partes; mas teria sido impossível para tal igreja realizar a obra –tão importante fora das fronteiras francas como dentro delas – que a Igreja Católica levou a cabo.48  

Do que foi dito até aqui, podemos concluir que (1) a conversão de Constantino foi o ponto crucial que permitiu que o Cristianismo se tornasse a religião oficial do Império Romano; (2) A Cidade de Deus, de Agostinho, proveu o ideal filosófico que inspirou o papado a construir um poder temporal para conquistar o mundo; (3) a conversão de Clóvis I abriu as portas para a unificação político-eclesiástica que era necessária para apoiar as pretensões católico-romanas durante a Idade Média; e (4) a guerra de Clóvis e a vitória final sobre os visigodos arianos, em 508, representa um passo extremamente importante em prover um exército efetivo para a Igreja Católica Romana punir os assim chamados “hereges”.

Portanto, o que ocorreu em 508 pode ser considerado um dos passos mais significativos no processo de consolidação das pretensões temporais da Igreja Católica Romana, que atingiu sua culminância nas fortes perseguições da Idade Média. 

O contexto histórico de 538 d.C.

Muitos eventos importantes ocorreram no longo processo de fortalecimento do papado. Tendo em mente o que foi dito até aqui, passaremos agora a considerar maisespecificamente alguns desses eventos ocorridos desde o início do sexto século até o ano de 538. De especial relevância foi a eleição do papa Símaco e o apoio do imperador Justiniano I.

O papa Símaco

No período inicial da Igreja Cristã, todos os bispos possuíam quase que a mesma autoridade. Mas “entre 313 e 590, o bispo romano passou a ser reconhecido como o primeiro entre os iguais”. Com a ascensão de Leão I ao trono episcopal, em 440, o bispo de Roma começou a reivindicar mais explicitamente sua supremacia sobre os demais bispos. Alguns dos bispos romanos da segunda metade do quinto século eram homens poderosos, e “não deixavam passar nenhuma oportunidade que pudesse aumentar o seu poder”.49

 Na passagem do quinto para o sexto século, o Papa Símaco foi “acusado de muitos crimes”, dentre os quais se destacavam o de “adultério” e o de “dissipar as propriedades da Igreja”. As acusações foram levadas ao herético rei ariano Teodorico, que convocou, com o consentimento do papa, um sínodo em 501 para tratar da questão. A despeito do fato de algumas pessoas argumentarem “que o bispo romano não podia ser julgado por qualquer outra pessoa, mesmo que fosse acusado de crimes como aqueles dos quais Símaco era acusado”, o problema não foi solucionado imediatamente. Mas finalmente, os membros de um sínodo realizado em 503 “exigiram que os oponentes e os acusadores do papa deveriam ser punidos, e saudaram a ele com altos brados de alegria”. Teodorico, rei dos ostrogodos, que estivera diretamente envolvido na solução do problema, “ordenou agora que todas as igrejas em Roma fossem entregues a Símaco, e que somente ele fosse reconhecido como bispo desta cidade”.50 

Embora essas discussões tratassem mais especificamente da integridade moral pessoal de Símaco em ocupar o trono papal, a questão básica da autoridade papal também estava envolvida: poderia um papa ser julgado por um rei ou por outros bispos? 

Em resposta a essa questão, havia pelo menos um “infame e extravagante bajulador de Símaco”, chamado Enódio, que chegava mesmo a ponto de asseverar “que um pontífice romano era constituído juiz em lugar de Deus, posição por ele ocupada como o subgerente do Altíssimo”.51

Embora o próprio Símaco admitisse obedecer “aos poderes temporais quando estes se limitam à esfera deles”, ele era também capaz de condenar o imperador por “apoiar a heresia”, enfatizando a sua própria superioridade sobre o governante:
Você imagina que, por ser um imperador, é permitido a você desprezar as ordenanças de Deus, e exaltar-se contra o poder de São Pedro? ... Compare a dignidade dos imperadores com a de um pontífice. Entre eles existe tanta diferença como entre um administrador das coisas terrestres e outro das celestiais. Embora você seja um príncipe, você recebe do pontífice o batismo e os sacramentos, e seu pedido de penitência. Em resumo, enquanto você é encarregado apenas de questões humanas, ele dispensa a você os bens celestiais. A dignidade dele, por conseguinte, é pelo menos igual à sua, para não dizer superior a ela.52 

O imperador Justiniano 

Justiniano I tornou-se em 527 o único imperador do segmento oriental do Império Romano, conhecido como Império Bizantino. Seus ideais políticos e eclesiásticos são bem definidos por Daniel D. McGarry na seguinte declaração:
Ele era inspirado por dois grandes projetos: [1] restaurar o Império Romano ao redor do Mediterrâneo Ocidental, e [2] restabelecer a unidade da Igreja Cristã. O primeiro alvo postulava a reconquista do ocidente do Mediterrâneo; o segundo, a erradicação da heresia no Egito e na Síria.53 

Mas Justiniano não via esses dois alvos como dissociados um do outro. Em realidade, ele reconhecia que uniformidade em questões seculares só poderia ser bemsucedida com “a mesma uniformidade em questões de fé.” Portanto, “Justiniano desejava reunificar todas as ramificações da Igreja Cristã e abolir todas as heresias”.54 De acordo com James Bryce:

Não apenas orgulhava-se de sua ortodoxia, como vários soberanos anteriores haviam feito, mas tinha também grande confiança em sua própria capacidade como teólogo, e tomou parte ativa em todas as controvérsias da época. Sendo um estudante diligente e uma pessoa de algumas pretensões literárias, ele leu e escreveu consideravelmente sobre assuntos teológicos.55 

 Algumas decisões eclesiásticas muito significativas foram tomadas por Justiniano.56 Como um “campeão da ortodoxia”, ele “proibiu impiedosamente tanto o paganismo quanto a heresia”.57 R. W. Collins explica que
os devotos das divindades pagãs foram privados de todos os direitos civis; assim eles não podiam exercer ofícios públicos, deixar como herança suas propriedades, ou servir como testemunha num julgamento. A pena de morte foi decretada a todos os que secretamente praticassem um culto pagão ou, uma vez convertidos, retornassem à sua antiga fé. Os filhos de pais pagãos deveriam ser tomados destes, batizados e instruídos na religião cristã. Todos os templos restantes eram convertidos em igrejas cristãs ou destruídos. Como um sopro final contra o paganismo, a Academia de Atenas, o último refúgio da filosofia pagã, foi fechada [em 529], seus professores foram dispersos, e suas doações, confiscadas.58

Considerando “a unidade da fé em um estado bem-organizado tão essencial quanto a unidade política”,59 Justiniano realizou um trabalho incomparável como “codificador e consolidador das leis preexistentes”, e como legislador, preparando “novas leis” que foram incorporadas em sua famosa Corpus Juris Civilis. 60 Essa obra inclui não apenas leis civis, mas também leis eclesiásticas, por meio das quais a supremacia eclesiástica do papa foi oficialmente legalizada.61

 Na segunda edição do seu Codex, publicado no dia 16 de novembro de 534,62 aparece uma carta escrita por Justiniano ao Papa João II, em 53363, na qual ele reconhece o papa como “o cabeça de todas as Sagradas Igrejas”. Justiniano inicia sua carta com as seguintes palavras:

Justiniano, Vitorioso, Pio, Feliz, Renovado, Triunfante, sempre Augusto, a João, Patriarca, e o mais Santo Arcebispo da justa Cidade de Roma: Com honra à Sé Apostólica, e à Vossa Santidade, que é e sempre tem sido lembrada em Nossas orações, tanto agora como anteriormente, e honrando vossa alegria, como é próprio no caso de alguém que é considerado como um pai, Nós nos apressamos em trazer ao conhecimento de Vossa Santidade tudo o que esteja relacionado com a condição da Igreja, uma vez que sempre tivemos o maior desejo de preservar a unidade da Sé Apostólica, e a condição das Santas Igrejas de Deus, como elas existem no tempo presente, para que permaneçam sem distúrbios ou oposições. Portanto, Nós Nos empenhamos em unir todos os sacerdotes do Oriente e sujeitá-los à Sé de Vossa Santidade, e, em conseqüência das questões levantadas presentemente, embora elas sejam evidentes e livres de qualquer dúvida, e, de acordo com a doutrina da vossa Sé Apostólica, são observadas constantemente com firmeza e pregadas por todos os sacerdotes, Nós ainda consideramos necessário que elas sejam trazidas à atenção de Vossa Santidade. Pois não permitimos que nada que diga respeito à condição da Igreja, embora o que cause as dificuldades seja claro e livre de dúvida, seja discutido sem que seja trazido ao conhecimento de Vossa Santidade, porque Vós sois o cabeça de todas as Santas Igrejas, pois Nós Nos empenharemos de todas as formas (como já mencionado) para aumentar a honra e a autoridade da Vossa Sé. 64 

É importante notar também a maneira como o papa enfatizou sua própria autoridade em uma carta escrita a Justiniano:

João, Bispo da Cidade de Roma, ao seu mais Ilustre e Misericordioso Filho Justiniano: Entre as conspícuas razões para louvar a vossa sabedoria e nobreza, Mais Cristão dos Imperadores, e um que irradia luz como uma estrela, se encontra o fato de que pelo amor do Pai, e movido pelo zelo pela caridade, tu, instruído em disciplina eclesiástica, tens mantido a reverência pela Sé de Roma, e tens subjugado todas as coisas à sua autoridade, e lhe tens dado unidade. O seguinte preceito foi comunicado ao seu fundador, isto é, ao primeiro dos Apóstolos, pela boca do Senhor, a saber: “Apascenta os meus cordeiros”. Esta Sé é, em realidade, a cabeça de todas as igrejas, como assegurado pelos preceitos dos Pais e decretos dos Imperadores, e testificado pelas palavras de vossa mais venerável piedade.65 

No mesmo ano (533), Justiniano promulgou um edito “contra todos os hereges”.66 Também em 533, um acordo de paz foi firmado entre os persas e os romanos, e os laureados filósofos pagãos, que se refugiaram entre os persas após Justiniano haver decretado o fechamento da escola deles em Atenas (529), “desapareceram gradativamente nas escolas públicas e seminários de erudição, que deixaram, com o passar do tempo, de estar sobre a direção deles”.67 

Uma das maiores evidências do interesse de Justiniano nas questões da Igreja pode ser observado, entretanto, “nos edifícios que ele construiu por todo o império”.68 O maior deles foi a Igreja da Hagia Sophia, ou a Igreja da Sagrada Sabedoria, que “foi designada para ser o símbolo visível do poder imperial”, e da qual o imperador considerava-se a si mesmo o representante terrestre”.69 Construída em Constantinopla e dedicada no dia de Natal de 537, esse edifício tem sido considerado “o mais magnífico monumento da arte bizantina da época” e “o mais importante edifício na história da arte cristã”.70 

O ano de 538 d.C.

Como visto anteriormente, muitos eventos importantes ocorreram durante o período anterior a 538, preparando o caminho para a supremacia papal da Idade Média. Embora Justiniano houvesse reconhecido oficialmente em 533 a primazia eclesiástica do papa, a Igreja de Roma ainda não tinha liberdade política para exercer sua supremacia. Desde a queda do Império Romano (476), Roma estava sempre sob domínio de um rei ariano. Os hérulos dominaram Roma até o tempo em que o seu rei Odoacro foi assassinado por Teodorico, em 493.71 Em 534, os vândalos foram completamente derrotados por Belisário e o seu exército. Mas Roma ainda não havia sido libertada do domínio dos ostrogodos. 

Em realidade, Roma, de acordo com Hodgkin, foi bloqueada por 374 dias, durante 537 e 538, pelo grande cerco dos ostrogodos. Mas por volta de 12 de março de 538, “os godos resolveram abandonar o seu cerco a Roma.”72 Herwing Wolfram esclarece que “no dia 21 de junho de 538, Belisário deixou Roma. Pouco depois, Narses, com sete mil homens, desembarcou em Picenum, provavelmente no porto de Firmum-Fermo. A superioridade numérica dos godos era agora uma coisa do passado.”73

Por conseguinte, “em 538, pela primeira vez desde o fim da linhagem imperial ocidental, a cidade de Roma estava livre do domínio de um reino ariano”.74 Isso não significa que naquela época o Império Ostrogodo sucumbiu, “mas a sepultura da monarquia ostrogoda na Itália foi cavada pela derrota desse cerco”.75

Também em 538 foi realizado o Terceiro Sínodo de Orleans,76 no qual “os bispos reunidos declararam a sua intenção de restabelecer as antigas leis da Igreja e aprovar novas leis”.77 Entre os 33 cânones, havia um (Cânone 13) no qual é dito que “os cristãos não devem se casar com judeus, nem mesmo comer com eles”;78 e outro (Cânone 28) diz:
É uma superstição judaica a noção de que é ilegal cavalgar ou dirigir no Domingo, ou fazer qualquer coisa para decorar a casa ou a pessoa. Mas os trabalhadores do campo são proibidos, de maneira que o povo tenha condições de vir à igreja e adorar. Qualquer que agir de outra forma será punido, não pelos leigos, mas pelos bispos.79

No dia 29 de junho de 538, o Papa Virgílio respondeu uma carta de Profuturo, Bispo de Braga, na Lusitânia, na qual ele “condena aqueles que se abstêm de certos tipos de carnes, alegando serem proibidas, ou más em si mesmas, como se procedessem de um princípio mau; que foi a doutrina dos maniqueus”.80 

O fato de Virgílio ser levado a Constantinopla e mantido lá por sete anos (547- 554),81 por não haver obedecido à vontade imperial, não significa que naquela época não houvesse um poder eclesiástico para apoiar as ambições católico-romanas. O verdadeiro problema foi que Justiniano, “que se orgulhava de seu conhecimento teológico e que tinha um amor apaixonado por sutis debates teológicos”, não estava satisfeito apenas em convocar concílios, sancionar ou revogar seus decretos, formular confissões de fé, e proferir veementes anátemas; ele estava determinado mesmo “a dominar o Papa, bem como a Igreja oriental”.82 

De acordo com Bémont e Monod, 

À medida que o bispo de Roma estava se tornando, desta maneira, o primata indisputável da Itália, e exercendo uma função de liderança na Igreja universal, ele começou a se envolver em questões temporais, não apenas em Roma, mas também no Império, e mesmo entre os reinos bárbaros. Até o sexto século, todos os papas são declarados santos nas martirologias. Virgílio (537-555) foi o primeiro de uma série de papas a não mais trazerem esse título, que foi conferido parcimoniosamente desde aquele tempo. Dessa época em diante, os papas, cada vez mais envolvidos em assuntos temporais, não pertenciam apenas à Igreja; eles são homens de Estado, e, então, governantes do Estado.83 

Platt e Drummont declaram que “poucos imperadores da Roma antiga tiveram tanto poder como o Papa durante a Idade Média”.84 

Do que foi dito sobre o contexto histórico de 538 d.C., podemos concluir que (1) a despeito do fato de Símaco ter legalmente de se submeter algumas vezes ao herético rei ariano Teodorico, ele não apenas se considerava superior ao governante secular, mas chegou mesmo a se auto-denominar “juiz em lugar de Deus” e “subgerente do Altíssimo”;85 (2) Justiniano I não apenas chamou o papa de “o cabeça de todas as Sagradas Igrejas”,86 mas também legalizou oficialmente a supremacia eclesiástica do papa; e (3) foi somente em 538 que a cidade de Roma se tornou livre do domínio de qualquer reino ariano “herético”, e a Igreja de Roma foi capaz de desenvolver mais efetivamente a sua supremacia eclesiástica. 

A seguinte declaração é muito significativa para se obter uma clara idéia do relacionamento entre 533 e 538, como mencionado anteriormente: 

Embora esse reconhecimento legal da supremacia eclesiástica do papa seja datado de 533, é óbvio que o edito imperial não pôde se tornar efetivo para o papa enquanto o reino ariano dos ostrogodos controlava Roma e grande parte da Itália. Foi somente após o domínio dos godos ter sido quebrado que o papado teve liberdade para desenvolver plenamente o seu poder. Em 538, pela primeira vez desde o fim da linhagem imperial ocidental, a cidade de Roma estava livre A importância das datas de 508 e 538 d.C. para a supremacia papal / 15 do domínio de um reino ariano. Naquele ano, o reino dos ostrogodos recebeu o seu golpe mortal (embora os ostrogodos sobrevivessem mais alguns anos como um povo). Esta é a razão porque 538 é uma data mais significativa do que 533.87

Resumo e conclusões 

Uma análise da história do Cristianismo revela que vários passos importantes ocorreram entre os séculos quarto e sexto no processo pelo qual a Igreja Romana tornou-se cada vez mais influente em questões seculares. Esse processo culminou na união entre a Igreja e o Estado. 

No tempo de Constantino, o Cristianismo obteve liberdade de culto, tornando-se uma das religiões oficiais do Estado. Os imperadores subseqüentes avançaram mais e mais na direção de transformar o Cristianismo na religião exclusiva do Estado. Após o saque de Roma pelos visigodos em 410, Agostinho escreveu sua famosa obra A Cidade de Deus, na qual ele expôs “o ideal católico de uma igreja universal em controle de um estado universal”, provendo “a base teocrática para o papado medieval”.88 A conversão de Clóvis, rei dos francos, foi um evento muito significativo em prover a unificação da Europa Ocidental para apoiar o papado durante a primeira metade da Idade Média. E a guerra de Clóvis contra os visigodos arianos e sua vitória sobre eles em 508, representa um passo importante em prover um exército efetivo para a Igreja Católica Romana punir os “hereges”.

 A despeito do fato de o Papa Símaco ser fortemente acusado e ter de se submeter ao julgamento do herético rei ariano Teodorico, ele se considerava superior ao governante secular e foi chamado até mesmo de “juiz em lugar de Deus” e “subgerente do Altíssimo”.89 Já em 533, Justiniano, imperador do Império Bizantino, reconheceu a supremacia eclesiástica do papa quando o chamou de “a cabeça de todas as Sagradas Igrejas”,90 e, no ano seguinte (534), esse status foi legalizado oficialmente na segunda edição do Codex. Mas foi somente em 538 que a cidade de Roma acabou sendo libertada do domínio de um “herético” reino ariano, e a Igreja Romana foi capaz de desenvolver mais efetivamente sua supremacia eclesiástica.

 Podemos concluir, com base nas discussões anteriores, que, se tomarmos os eventos ocorridos em 508 e 538 isoladamente, sem levar em consideração os seus respectivos contextos históricos, poderemos ser tentados a negar a validade de se escolher essas datas como pontos de partida para os períodos proféticos dos 1.290 e 1.335 anos, e para os 1.260 anos. Mas se considerarmos os anos de 508 e 538 à luz dos seus respectivos antecedentes históricos, perceberemos que não existe qualquer razão para negarmos a importância histórica de tais datas no longo processo de estabelecimento da autoridade temporal do Bispo de Roma.

Referências

1 Uma versão preliminar deste artigo foi publicada na Revista Teológica do Salt-Iaene 3 (janeirojunho de 1999): 40-54. 
2 Conceitos úteis sobre o princípio “dia-ano” de interpretação profética são providos em William H. Shea, Selected Studies on Prophetic Interpretation, Daniel and Revelation Committee Series, vol. 1 ([Washington, DC: Biblical Research Institute, General Conference of Seventh-day Adventists], 1982); Alberto R. Timm, “Miniature Symbolization and the Year-Day Principle of Prophetic Interpretation,” Andrews University Seminary Studies 42 (primavera de 2004):149-167; publicado em português sob o título “Simbolização em miniatura e o princípio ‘dia-ano’ de interpretação profética”, Parousia 3 (nº 1): 33-46. 
3 Siegfried J. Schwantes demonstrou que, de acordo com Gênesis 1, a expressão “tardes e manhãs” representa “dias.” Ver S. J. Schwantes, “‘Ereb Boqer of Dan 8:14 Re-examined”, Andrews University Seminary Studies 16 (outono de 1978): 375-385. 
4 O desenvolvimento da compreensão inicial dos adventistas do sétimo dia dos 1.260, 1.290 e 1.335 dias-anos é apresentado em P. Gerard Damsteegt, Foundations of the Seventh-day Adventist Message and Mission (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1977): 20-25, 38-40, etc. Ver também Alberto R. Timm, “Os 1290 e 1335 Dias de Daniel”, Ministério (Brasil), maio-junho de 1999, pp. 16-18; disponível em inglês como “The 1.290 and 1.335 Days of Daniel 12,” em http://biblicalresearch.gc.adventist.org/documents/ daniel12.htm. 
5 Ver Artaud de Montor, The Lives and Times of the Roman Pontiffs, from St. Peter to Pius IX (New York: D. & J. Sadlier, 1866), 2:486-513; Ludwig von Pastor, The History of the Popes from the Close of the Middle Ages (London: Routledge and Kegan Paul, 1953), 40:332-339; J. N. D. Kelly, The Oxford Dictionary of Popes (Oxford: Oxford University Press, 1986), 302; S. J. Watson, By Command of the Emperor: A Life of Marshal Berthier (London: Bodley Head, 1957), 67-70; Owen Chadwick, The Popes and European Revolution, Oxford History of the Christian Church (Oxford: Clarendon Press, 1981), 462-471. 
6 Por exemplo, Bernard Grun, em sua obra The Timetables of History, nova 3ª ed. rev. (New York: Simon & Schuster, 1991), não apresenta qualquer evento histórico significativo relacionado tanto a 508 quanto a 538 d.C. 
7 Uriah Smith, The Prophecies of Daniel and the Revelation, ed. rev. (Nashville, TN: Southern Publishing Association, 1944), 266-279, 323-334. 
8 C. Mervyn Maxwell, “An Exegetical and Historical Examination of the Beginning and Ending of the 1260 Days of Prophecy with Special Attention Given to A.D. 538 and 1798 as Initial and Terminal Dates” (dissertação de mestrado, Seventh-day Adventists Theological Seminary, 1951). 
9 Lars P. Qualben, A History of the Christian Church (Nova York: Thomas Nelson and Sons, 1940), 116. 
10 Earle E. Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos: Uma História da Igreja Cristã, trad. Israel Belo de Azevedo (São Paulo: Vida Nova, 1984), 100.
11 Ibid. 
12 Ibid., 127. Ver também M. Creighton, A History of the Papacy from the Great Schism to the Sack of Rome (Londres: Longmans, Green, and Co., 1907), 1:7-8. 
13 Cairns, 100. 
14 Qualben, 116. 
15 Daniel Walther, “I Believe... in the Millennium”, Review and Herald, 4 de maio de 1972, 5. 
16 Cairns, 100-101. 
17 Katherine F. Drew, “Barbarians, Invasions of”, em Joseph R. Strayer, ed., Dictionary of the Middle Ages (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1983), 2:90-91. 
18 Ver R. H. Barrow, Introduction to St Augustine, The City of God (Londres: Faber and Faber, [1950]), 17. Em português, ver Santo Agostinho, A Cidade de Deus (contra os pagãos) (Petrópolis, RJ: Vozes, 1990). 
19 Thomas Merton, “Introduction”, em Saint Augustine, The City of God (Nova York: Modern Library, 1950), ix. 
20 Edward R. Hardy, Jr., “The City of God”, em Roy W. Battenhouse, ed., A Companion to the Study of St. Augustine (Nova York: Oxford University Press, 1955), 257. 
21 Ross William Collins, A History of Medieval Civilization in Europe (Boston: Ginn and Company, s.d.), 102. 
22 Qualben, 126. 
23Cairns, 103. 
24 Walter C. Perry, The Franks, from Their First Appearance in History to the Death of King Pepin (Londres: Longman, Brown, Green, Longmans, and Roberts, 1857), 75. 
25 H. M. Gwatkin e J. P. Whitney, The Cambridge Medieval History (Nova York: Macmillan, 1926), 2:111. 
26 George B. Adams, Civilization during the Middle Ages (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1914), 140. 
27 Cf. Brian Tierney e Sidney Painter, Western Europe in the Middle Ages: 300-1475, 3ª ed. (Nova York: Alfred A. Knopf, 1978), 54: “A história contada sobre a conversão de Clóvis é semelhante à de Constantino.” 
28 Gwatkin e Whitney, 112. 
29 Cf. Thomas Hodgkin, Theodoric the Goth; the Barbarian Champion of Civilization (Nova York: G. P. Putnam’s Sons, 1894), 189-190: “Clóvis, elevando os seus olhos aos céus e derramando lágrimas em agonia de alma, disse: ‘Ó Jesus Cristo!, a quem Clotilde declara ser o filho do Deus vivo, e de quem é dito dar ajuda aos abatidos e a vitória aos que em ti confiam, eu humildemente oro por tua gloriosa ajuda, e prometo que se me concederes a vitória sobre esses inimigos, eu crerei em ti e serei batizado em teu nome. Pois eu clamei aos meus próprios deuses e cheguei à conclusão de que eles não são de nenhum poder e não ajudam àqueles que os buscam.’” 
30 Archibald Bower, The History of the Popes (Philadelphia: Griffith & Simon, 1844), 295. 
31 Jean Hubert, “Clovis,” in Warren E. Preece, ed., Encyclopædia Britannica (Chicago, IL: Encyclopedia Britannica, 1971), 5:952. 
32 Hodgkin, Theodoric the Goth, 190. 
33 Cairns, 104. 
34 Harry Rosenberg, “The West in Crisis”, em Tim Dowley, ed., Eerdmans’ Handbook to the History of Christianity (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1977), 220. 
35 Adams, 135. 
36 Ephraim Emerton, An Introduction to the Study of the Middle Ages (375-814) (Boston: Ginn and Company, 1916), 66. 
37 William J. Courtenay, “Clovis I”, em The McGraw-Hill Encyclopedia of World Biography (New York: McGraw-Hill, 1973), 3:56 (grifos acrescentados)
38 Gwatkin e Whitney, 112 (grifos acrescentados).
39 Ibid., 113 (grifo acrescentado). 
40 Thomas R. Buchanan, “Clovis”, em William Smith e Henry Wace, eds., A Dictionary of Christian Biography, Literature, Sects and Doctrines (Boston: Little, Brown, and Company, 1877), 1:582: “Que o elemento religioso foi muito poderoso nessa guerra (Rückert, i. 324) é evidente da carta de Clóvis aos bispos (Bouquet, l.c.), das tentativas inúteis de Alarico para confirmar a lealdade dos seus súditos católicos e romanos (Richter, p. 39, nota 2), e do que Cassiodoro (Var. iii. Ep. 1-4) nos diz das negociações anteriores à guerra.” 
41 Perry, 85 (grifos acrescentados). 
42 Auguste Dumas, “Clovis I”, em Alfred Baudrillart, A. De Meyer e Et. Van Cauwenbergh, eds., Dictionnaire D’Histoire et de Géographie Ecclésiastiques (Paris: Librairie Letouzey et Ané, 1956), 13:30. Ver também Gwatkin e Whithey, 115; Smith e Wace, 1:582-583. Cf. Jean Hubert, “Clovis”, em Encyclopaedia Britannica (Chicago: Encyclopaedia Britannica, 1971), 5:952: “Essa história [da visita de Clóvis a Tours em 508], uma vez questionada por alguns historiadores, tem sido corroborada, até certo ponto, por investigações posteriores.” 
43 Adams, 137.
44Victor Duruy, The History of the Middle Ages (Nova York: Holt and Company, 1904), 29. Cf. Strayer, ed., Dictionary of the Middle Ages, 2:94: “Em 508 ele [Clóvis] conseguiu eliminar todos os reis francos rivais, muitos dos quais eram parentes próximos.” 
45 Cairns, 104. 
46 Duruy, 32 (grifos acrescentados). 
47 Adams, 142 (grifos acrescentados). 
48 Ibid., 141. 
49 Cairns, 127. 
50 Charles J. Hefele, A History of the Councils of the Church, from the Original Documents (Edinburgh: T. & T. Clark, 1895), 4:59-62, 71, 74. 
51 John L. Mosheim, An Ecclesiastical History, Ancient and Modern, from the Birth of Christ, to the Beginning of the Eighteenth Century (Londres: Impresso para R. Baynes, 1819), 2:113. 
52 M. Gosselin, The Power of the Pope During the Middle Ages; or, An Historical Inquiry into the Origin of the Temporal Power of the Holy See, and the Constitutional Laws of the Middle Ages Relating to the Deposition of Sovereigns (Baltimore: J. Murphy & Co., 1835), 1:186 (grifos acrescentados). 
53 Daniel D. McGarry, Medieval History and Civilization (Nova York: Macmillan, 1976), 119 (grifos acrescentados). 
54 Shepard B. Clough, ed., A History of the Western World: Ancient Times to 1715 (Lexington, MA: D. C. Heath, 1969), 200. 
55 James Bryce, “Justinianus I”, em Smith e Wace, 3:545 (grifos acrescentados). 
56 Ver ibid., 545-551. 
57 Collins, 156. 
58 Ibid., 156-157. 
59 Ibid., 156. 
60 Ver Smith e Wace, 551-559. 
61 Ver LeRoy E. Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers (Washington, DC: Review and Herald, 1950), 1:501-517. 
62 Smith e Wace, 554. De acordo com ibid., 553, a primeira edição do Codex foi formalmente promulgado em abril de 529. 
63 Cf. Maxwell, 82-83; Richard F. Littledale, The Petrine Claims (London: Society for Promoting Christian Knowledge, 1889), 291-293. 
64 The Code of Justinian, 2ª ed., livro 1, título 1. Republicado em S. P. Scott, The Civil Law (Cincinnati: Central Trust Company, s.d.), 12:11-12 (grifos acrescentados). 
65 Ibid., 12:10-11 (grifos acrescentados). Lamentavelmente, não foi possível ao autor do presente artigo descobrir a data dessa carta. 
66 Richard F. Littledale, The Petrine Claims (Londres: Society for Promoting Christian Knowledge, 1889), 291 (grifos acrescentados). 
67 Mosheim, 2:109. 
68 Collins, 157. 
69 A History of the Western World, 199. 
70 Collins, 158. 
71 Thomas Hodgkin, Italy and Her Invaders (Oxford: Clarendon Press, 1896), 3:212, 620-626. 
72 Ibid., 4:250. Cf. Sir Edmund Barrow, The Growth of Europe Through the Dark Ages: A.D. 401-1100 (Londres: H. F. & G. Witherby, 1927), 71-72: “O cerco durou todo um ano, de fevereiro ou março de 537 a março de 538. ... Os godos tentaram negociar, mas sem sucesso, e em março de 538 Vitiges suspendeu o cerco e se retirou na direção do norte.” 
73 Herwig Wolfram, History of the Goths, trad. Thomas J. Dunlap, ed. rev. (Berkely, CA: University of California Press, 1988), 346. 
74 Seventh-day Adventist Bible Commentary, 4:826-827. 
75 Froom, 1:515; Hodgkin, Italy and Her Invaders, 251-252. 
76 Ver Hefele, 204-209. 
77 Ibid., 205 (grifos acrescentados). 
78 Ibid., 207. 
79 Ibid., 208-209 (grifos acrescentados). 
80 Archibald Bower, The History of the Popes, from the Foundation of the See of Rome, to the Present Time (Londres: Impresso para o autor, 1750), 2:375-376 (primeiro grifo acrescentado).
81 De acordo com A. Bower, Virgílio chegou “em Constantinopla no dia 25 de janeiro de 547” (ibid., 384), e embarcou em seu retorno a Roma, levando consigo um “Constituição datada de 13 de agosto[de 554]” (ibid., 415-416). 
82 Collins, 156, 158. 
83Charles Bémont e G. Monod, Medieval Europe from 395 to 1270 (Nova York: Henry Holt, 1902), 120-121. 
84 Nathaniel Platt e Muriel J. Drummond, Our World Through the Ages (Nova York: Prentice-Hall, 1954), 141. Estes dois historiadores datam a Idade Média de ca. 500 a ca. 1500, de acordo com ibid., 134.
85 Mosheim, 2:113. 
86 Scott, 12:12. 
87 Seventh-day Adventist Bible Commentary, 4:827. 
88 Ibid., 836. 
89 Mosheim, 2:113. 
90 Scott, 12:12. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Sábado Semanal ou Sábado Lunar?

Sábado Semanal ou Sábado Lunar: Os Adventistas Estão guardando o Sábado Errado?
Por Gerhard Pfandl

            Judeus, Adventistas do Sétimo Dia e outros grupos guardadores do Sábado, guardam o sábado cada sétimo dia de acordo com o relato da criação em Gênesis 1 a 2:3, e o quarto mandamento em Êxodo 20:9 a 11. Nos últimos anos, um número de pessoas entre os Judeus Messiânicos e os Adventistas do Sétimo Dia começaram a promover a “Teoria do Sábado Lunar”.

A “Teoria do Sábado Lunar”

            Essa teoria diz que o Sábado tradicional fixado a cada sétimo dia da semana, do por-de-sol da sexta-feira até ao pôr de sol do sábado é uma corrupção do Sábado bíblico “original” baseado no ciclo lunar. Sob esse modelo, o Sábado sempre cairia no 8º, 15º, 22º e 29º de cada mês lunar.
            “No calendário bíblico lunar-solar, cada lunação (ou mês lunar) sempre começa com um dia de Lua Nova, o qual é classificado como dia de adoração. Seis dias de trabalho seguirão o segundo através do sétimo do mês. O sétimo dia, Sábado, sempre cai no 8º, 15º, 22º e 29º dia de cada mês lunar. Essa é a razão de ser chamado de Sábado Lunar.” (1)
            Desde que o mês lunar tem 29 dias e meio, cada mês tem 4 semanas com sete dias e um ou dois dias a mais, dependendo se o mês tem 29 ou 30 dias. Se você mantiver um ritmo de sete dias, significa que o “Sábado Lunar” pode cair em qualquer dia de uma semana regular; porque com cada novo mês lunar cai um dia ou dois depois na semana do que no último mês (veja abaixo). Como resultado, ao seguir esse sistema a pessoa terá que lidar com uma situação muito difícil e não prática de separar um dia diferente (normal de trabalho) em cada mês em uma escala rotativa.
            Uma complicação a mais surge da alegada contagem da lua nova e dias de transição. Como o ritmo de sete dias não pode ser mantido se o Sábado deve sempre cair no 8º, 15º, 22º e 29º de cada mês lunar, o primeiro dia, o dia de Lua Nova, e o 30º dia do mês não são contados como parte da semana.
            Todos os dias não são criados iguais de acordo com as Escrituras. O Senhor Yahuwah ordenou três classes distintas e separadas de dias que ocorrem mensalmente: os dias de Lua Nova, seis dias de trabalho e os Sábados do sétimo dia. O 30º dia, conhecido em termos astronômicos com um dia de “translação” (dia de transição), é simplesmente um dia de trabalho, mas não é parte dos seis dias da semana seguidos pelo sétimo dia, o Sábado. (2)

Domingo
Segunda
Terça
Quarta
Quinta
Sexta
Sábado
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1
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3
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5
6
7
8
9
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Dia de transição
Dia de Lua Nova
Sábado Lunar

            Os dias de transição (em amarelo) e os dias de Lua Nova (em azul) não são contados como parte da semana regular porque “o dia de Lua Nova é um dia de adoração e portanto não é contado quando se conta a semana” (3). No entanto, quando o mês lunar tem 30 dias o tempo entre o Sábado no 29º dia do mês e o primeiro Sábado do mês seguinte não são seis dias, mas oito dias (dia de transição, dia de Lua Nova, e seis dias de trabalho) (4).  
O Calendário de Israel
            É difícil imaginar um povo com as vidas mais reguladas pelo calendário do que o povo do antigo Israel (5). O ano israelita era um ano “lunisolar” de 354 dias nos quais os meses se alternavam entre 29 e 30 dias, mas o sétimo dia da semana não era afetado pelo calendário lunar. O mês Judeu começa invariavelmente com a Lua Nova. Não existe informação exata que explique como os Israelitas originalmente ajustaram seu impreciso calendário lunar para sincronizar com o atual ano solar. Mas nós sabemos que em tempos pós-exílio um mês extra foi inserido entre Adar e Nisan. Aquele mês, algumas vezes chamado de Veadar (e Adar), era adicionado sete vezes dentro de um clico de 19 anos.
            O sistema de calendário Judaico e o ciclo das festas anuais estava ligado ao tempo da colheita no ano Judaico. A Páscoa, no 14º dia do primeiro mês e a “sacrifício de oferta movida”, dois dias depois, sempre caia no período da colheita da cevada madura, Pentecostes, cinquenta dias depois do tempo da colheita do trigo, e o Dia da Expiação e a Festa dos Tabernáculos no 7º mês depois das colheitas remanescentes (primariamente uvas e azeitonas) tivessem sido feitas. Este era o modelo geral no tempo do Velho Testamento como também no tempo de Jesus.
            Enquanto as festas judaicas foram fixadas pelo calendário lunar, o Sábado não foi. Ele tinha o seu próprio tempo fixado e não era considerado parte das festas. As festas eram dependentes do calendário lunar, mas o Sábado não era dependente de coisa alguma exceto pelo ciclo de sete dias que Deus criou e preservou desde a criação (6). Por toda a Bíblia existe uma distinção entre as festas, luas novas, e Sábados do sistema cerimonial (veja exemplos em Lev. 16:31; 23:4 a 8; 25:4) e o sétimo dia, o Sábado (Gên. 1 a 2:3; Êxodo 20:8 a 11; Lev. 23:3; Deut. 5:12).
As Afirmações dos Sabatistas Lunares examinadas –
            Afirmação #1 – “O Sábado do sétimo dia caía em cada 8º, 15º, 22º e 29º dia do mês lunar.” (7)
a.       Todos os Sábados cerimoniais foram determinados para certas datas. A Páscoa no décimo quarto dia do primeiro mês (Lev. 23:5); a Festa do “Pão Sem Fermento” no décimo quinto dia do primeiro mês (Lev. 23:6); a “Festa das Primícias” (Primeiros Frutos) no décimo sexto dia do primeiro mês (Lev. 23:10 a 11); a Festa das Semanas ou Pentecostes, 50 dias depois da Festa das Primícias (Lev. 23:16); a Festa das Trombetas no primeiro dia do sétimo mês (Lev. 23:24); o Dia da Expiação no décimo dia do sétimo mês (Lev. 23:27); a Festa dos Tabernáculos no décimo quinto dia do sétimo mês (Lev. 23:34).
Deus ligou cada Sábado Cerimonial a um dia em particular. Se Ele quisesse que cada Sábado semanal fosse celebrado no 8º, 15º, 22º e 29º dia do mês por que não existe um só verso nas Escrituras dizendo aos Israelitas que o Sábado deveria ser observado nestes dias? O Sábado semanal não seria mais importante que os Sábados anuais?
b.      De acordo com Números 33:3 o Êxodo ocorreu no 15º dia do primeiro mês. O 15º dia foi o dia depois da Páscoa, “partiram, pois, de Ramessés no décimo quinto dia do primeiro mês; no dia seguinte ao da Páscoa saíram os filhos de Israel, corajosamente, aos olhos de todos os egípcios.” Eles começaram sua jornada no 15º dia enquanto ainda estava noite. Ellen White diz que “antes que a manhã raiasse, estavam a caminho” (8). Se o 15º dia foi um sábado teria sido o primeiro dia completo da viagem. Sob a luz de Mateus 24:20, onde Jesus disse aos discípulos, “orai para que a vossa fuga não se dê no inverno, nem no sábado,” é difícil aceitar que Deus iniciou o êxodo do Egito no Sábado.
c.        Os filhos de Israel chegaram ao deserto de Sim “aos quinze dias do segundo mês, depois que saíram da terra do Egito” (Êxodo 16:1). Novamente, eles viajaram no 15º dia, portanto não deve ter sido Sábado.
d.      Em Josué 5:10 a 12 nos é dito que o maná cessou no 16º dia do primeiro mês:
“Estando, pois, os filhos de Israel acampados em Gilgal, celebraram a Páscoa no dia catorze do mês, à tarde, nas campinas de Jericó. Comeram do fruto da terra, no dia seguinte à Pascoa; pães asmos e cereais tostados comeram nesse mesmo dia. No dia imediato, depois que comeram do produto da terra, cessou o maná, e não o tiveram mais os filhos de Israel; mas naquele ano, comeram das novidades da terra de Canaã.”
A Páscoa foi no 14º dia do primeiro mês. No 15º dia eles comeram dos produtos da terra, e no 16º dia o maná cessou. Se o maná cessou no 16º dia do primeiro mês, ele deve ter caído no 15º dia, pois de outra maneira o texto deveria ter dito que ele cessou no 14º dia ou no 15º dia. Portanto o 15º dia não pode ter sido Sábado porque Deus nunca mandou maná no Sábado. (9)
Nós olhamos quatro textos bíblicos que indicam que o 15º dia do mês não podia ter sido Sábado. Isto mostra a falácia da “Teoria do Sábado Lunar”. A coluna principal do seu ensino claramente não soa como os advogados desta teoria querem nos fazer crer.

Afirmação #2 – “O Senhor ordenou três classes distintas e separadas de dias que ocorreriam mensalmente: os dias de Lua Nova, seis dias de trabalho, e os Sábados do sétimo dia.” Em adição, o 30º dia que também não é contado como parte dos seis dias da semana.” (10)
a.       De acordo com Gênesis 1 a 2:3, Deus criou apenas duas classes de dias: seis dias de trabalho e o Sábado. Isto é confirmado nos 10 Mandamentos em Êxodo 20 e Deuteronômio 5. “Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho.” (Êxodo 20:9 e 10)
b.      Existe evidência para um festival de Lua Nova entre as nações na antiga Mesopotâmia, muito tempo atrás, no terceiro milênio antes de Cristo (11). Na Bíblia, no entanto, a celebração da Lua Nova não é mencionada até o tempo de Moisés. A única legislação concernente à Lua Nova no Velho Testamento está na prescrição de uma oferta queimada de Números 28:14. Enquanto Amós 8:5 parece indicar que nenhum trabalho deveria ser feito no dia de Lua Nova, outros textos mostram que ele não era um dia de descanso. Por exemplo, Israel deixou o Egito no dia primeiro do mês (Números 33:3); Foi dito a Moisés para edificar o tabernáculo no primeiro dia do mês (Êxodo 35:2); Esdras começou sua jornada para Jerusalém no primeiro dia do mês (Esdras 7:9). William Hallo diz: “Somente o primeiro dia de Tishri tinha um caráter especial de dia santificado, e mesmo aqui o texto bíblico, como é bem sabido, evita o termo ‘ros hassana’, cabeça do ano.” (12)
Ainda que a Lua Nova fosse um dia de descanso como o Sábado, não existe indicação que ele não fosse reconhecido como parte dos 6 dias da semana, como eram todos os sábados cerimoniais de Levítico 23. Por que deveriam todos os outros Sábados anteriores serem parte dos 6 dias da semana, mas não o dia de Lua Nova?
c.       Que as semanas no Velho Testamento eram ciclos contínuos sem interrupção pela Lua Nova é mostrado em Levítico 23:15 e 16.
“Contareis para vós outros desde o dia imediato ao sábado, desde o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete semanas inteiras serão. Até ao dia imediato ao sétimo sábado, contareis cinquenta dias; então, trareis nova oferta de manjares ao Senhor.”
d.      Sete Sábados são 49 dias e o dia depois do último sábado é o 50º dia. Isto só pode ocorrer se as semanas forem contadas como ciclos ininterruptos de sete dias. Isto é confirmado pela linha de tempo do Dilúvio. De acordo com Gênesis 7:24 “as águas durante cento e cinquenta dias predominaram sobre a terra”. Começou a chover “no ano seiscentos da vida de Noé, aos dezessete dias do segundo mês” (Gênesis 7:11). A arca descansou no Monte Ararate cinco meses mais tarde “no dia dezessete do sétimo mês” (Gênesis 8:4). Esta é uma clara evidência que o mês bíblico tem 30 dias; portanto, 150 dias são cinco meses, sem interrupções por dias de Lua Nova.

Afirmação #3 – “Os Judeus foram forçados a desistir de seu calendário lunar e aceitar o calendário pagão romano:
            Os calendários Juliano ou Gregoriano nunca mudaram o ciclo de sete dias depois que ele foi mudado do ciclo de original de oito dias por volta do tempo de Constantino em 321 a.D. ... A maioria do povo não tinha tido ideia de que o oitavo dia da semana do calendário pagão Juliano não fora reconhecido pelas comunidades Hebraicas no tempo de Cristo. ... Foi somente depois que Roma conquistou Jerusalém no ano 70 a.D. que os Judeus começaram a sucumbir para os caminhos de Roma e seu calendário pagão.” (13)
            Vestígios de sete dias semanais podem ser encontrados entre as primeiras civilizações do Oriente Médio. Os astrólogos da Mesopotâmia designavam um dia para cada dos sete mais proeminentes objetos no céu – o Sol, a Lua, e os cinco maiores planetas visíveis a olho nu. Os Israelitas sempre ativeram-se aos sete dias semanais como indicado claramente em Gênesis 1 a 2:3 e Levítico 23:15 e 16. Outras nações tinham semanas de diferentes durações. (14)
            O calendário romano de oito dias foi mudado para o calendário de sete dias ainda no período imperial, não no tempo de Constantino (15). Agora, se os Judeus foram forçados a desistir de seu Sábado do calendário lunar e em troca adotar o calendário pagão Juliano nos dias posteriores a 70 a.D. ou desde o tempo de Constantino, deveria haver enorme quantidade de evidências hoje, de que esta mudança tivesse ocorrido.
            Os Judeus sempre foram muito persistentes e fiéis na observância do Sábado. Se eles acreditassem que Deus tivesse dado a eles o sábado lunar, eles não desistiriam sem uma grande batalha. Haveria escritos relatando em algum lugar da história sobre a resistência dos Judeus na mudança do seu método de guardar o Sábado.
            Como os Judeus se espalharam por muitas nações do mundo seria necessário um exército de missionários indo a toda parte para convencer e reforçar a mudança de sua maneira de guardar o Sábado do método lunar para o ciclo semanal. Deveria haver grupos de Judeus pelo mundo ferozmente apegados ao modo antigo que Deus havia dado a eles e muitos grupos Judeus ainda deveriam estar guardando o Sábado lunar até hoje.
            Mas exatamente o oposto é que é verdadeiro. A história é absolutamente silente de que alguma coisa como esta tenha ocorrido. Não existem leis que ordenaram a mudança do ciclo do lunar para o Sábado semanal, e os Judeus, hoje, em torno do mundo guardam o Shabat no dia de Sábado.
            Quando diferenças surgem entre dois grupos, existe sempre uma brecha, com alguns crendo de uma maneira e outros crendo de outra maneira. Com uma mudança tão conflitante na estrutura de fé dos Judeus, nós deveríamos ver essa brecha, essa ruptura, entre eles. Existe uma divisão entre os Judeus, mas não é sobre a teoria do Sábado lunar. É a divisão entre os Judeus Karaítas Rabínicos – que era principalmente, sobre o modo de calcular os dias de festas.
            Um estranho cálculo matemático, de que todos os Judeus em torno do mundo, tenham mudado do calendário lunar para os sete dias da semana, sem deixar nenhum traço seria astronômico, ou virtualmente impossível. Este é um importantíssimo link perdido para a teoria do sábado lunar.

Sumário e Conclusão

            Os sabatistas lunares afirmam que o calendário luni-solar é o verdadeiro calendário bíblico, no qual o sábado cai sempre no 8º, 15º, 22º e 29º dia do mês. Além do mais, a Lua Nova e o 30º dia do mês não são contados como parte da semana. Eles ainda afirmam que os Judeus sob o Império Romano foram forçados a abandonar o calendário lunar e aceitar o calendário Juliano com seu contínuo ciclo de sete dias semanais.
            Nossa investigação tem mostrado que estas afirmações não podem ser confirmadas pelas Escrituras ou pela história. O Sábado bíblico, como o sétimo dia da semana, foi instituído no Éden e foi celebrado pelos Judeus no Velho e Novo Testamento sem interrupção de tempo. Assim como os dias de festas, os dias de Lua Nova eram parte do ciclo semanal. Ellen White claramente afirma:
            “Como o Sábado, a semana originou na Criação, e ela tem sido preservada e trazida até nós pelo relato bíblico. O próprio Deus separou a primeira semana como um modelo para as sucessivas semanas para fecharem o tempo. Como qualquer outra, ela consiste de sete dias literais.” (16)
            Concluindo, todos os argumentos dos sabatistas lunares se reduzem se Deus conectou o Sábado ao calendário lunar, como Ele fez com as festas, ou se Ele estabeleceu um ciclo semanal na Criação para o Sábado e o preservou até os nossos dias. Não existe evidência conclusiva nas Escrituras que apontam para o Sábado sendo conectado com a lua. Ao contrário, a Bíblia é clara mostrando que a semana tem um ciclo recorrente de sete dias terminando com o Sábado. Isto é apoiado pelas retas afirmações da Palavra de Deus, pelo Espírito de Profecia e pela História.

Gerhard Pfandl é ex-Diretor Associado do Instituto de Pesquisa Bíblica.

(1)   www.worldlastchance.com, “Saturday Sabbath? Or Lunar Sabbath?” acessado em janeiro de 2011.
(2)    www.worldlastchance.com, “Three Months in a Row.” Acessado em janeiro de 2011.
(3)   Arnold Bowen, “O Sábado Lunar”, pág. 1 (www.lunarsabbath.org– acessado em janeiro de 2011)
(4)   Eu estou em débito com Terri Heagy pelo gráfico do calendário lunar. Seu manuscrito não publicado “Challenges Regarding the Lunar Sabath” contém uma excelente resposta à Teoria do Sábado Lunar.
(5)   G. W. Bromiley, ed., “The International Standard Bible Encyclopedia”, revisada, 4 vols. (Gran Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1988) 1:576.
(6)   Ver Gerhard F. Hasel, “Sabath” no “Anchor Bible Dictionary”, ed. David Noel Freedman (New York: Doubleday, 1992) 5:849-856.
(7)   www.worldlastchance.com “Time By Design” (Accessed January 2011)
(8)   Ellen G. White, “Patriarchs and Prophets” (Mountain View, CA: Pacific Press, 1958), 281.
(9)   E estou em dívida com Michael Pedrin por usar algum dos materiais nesse artigo. Seu manuscrito não publicado “The Big Lie” é uma outra excelente resposta à Teoria do Sábado Lunar.
(10)   www.worldlastchance.com “Three Months in a Row” (accessed January 2011)
(11)   Ver William W. Hallo, “New Moons and Sabaths: A Case Study in the Contrastive Approach”, Bible and Spade 9 (1980)
(12)  Ibid,. 64.
(13)  K. L. French, “The Creator’s Calendar”, manuscrito não publicado, 3 e 4.
(14)   Na Assíria 6 dias era a regra, no Egito 10, na China 15. Os antigos Alemães usavam um ciclo de 5 dias e os primeiros Romanos usavam oito dias.
(15)    “Durante os dois primeiros séculos depois de Cristo, o mundo Greco Romano em geral adotou a semana planetária de sete dias dos astrólogos” (Encyclopedia Britannica), 15ª edição, s.v. “Church Year”.
(16)    Ellen G. White, “Patriarchs and Prophets” (Mountain View, CA: Pacific Press, 1958), 11.